A Califórnia vai se tornar a próxima Grécia?

Não falta dramaticidade à crise grega. Temos um governo ameaçado. Temos servidores públicos furiosos queimando latas de lixo nas ruas. Temos os austeros alemães de coração mole, que inicialmente se recusaram a resgatar seus irresponsáveis vizinhos gregos, mas acabaram decidindo ajudar.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Deixando de lado todo o drama, o motivo pelo qual a crise está atraindo tanta atenção é a suspeita de que a Grécia seja o canário na mina de carvão - de que o país seja o arauto de problemas fiscais e financeiros igualmente graves em outros países.

Para alguns, os principais candidatos a esse destino nada invejável são Espanha e Itália. Mas aqui, na Califórnia, somos inundados por equipes da televisão europeia que procuram entrevistas sobre os paralelos entre o nosso Estado e a Grécia. Como a Grécia, a Califórnia vive uma grave crise orçamentária - a diferença pouco alentadora está no fato de a economia californiana ser cinco vezes maior do que a grega. E assim como a Califórnia, o governo federal americano também enfrenta graves problemas orçamentários - a diferença está novamente no fato de a economia dos Estados Unidos ser cinco vezes maior do que a da Califórnia. Quando percebemos que a economia dos EUA é 25 vezes maior do que a grega, notamos o motivo de tamanha preocupação. É por isso que as equipes de televisão estão se instalando em cada esquina.

Certamente, as perspectivas econômicas e financeiras da Grécia são desalentadoras. A situação é grave mesmo com um pacote de resgate de 45 bilhões, oferecido pela União Europeia e pelo FMI. Esse dinheiro será suficiente para ajudar o governo grego a chegar ao fim do ano. Mas o único efeito do pacote é ganhar tempo. Ele não resolve os severos problemas econômicos e financeiros subjacentes. Com um déficit de 13% do PIB, o governo grego tem gasto muito mais do que poderia. Com um déficit em conta corrente de 10% do PIB em 2009, o país também tem vivido num alto padrão. O custo unitário da mão de obra na Grécia cresce a um ritmo duas vezes superior à média observada no resto da zona do euro. O país apresenta a economia mais regulada e distorcida da Europa, o que é significativo.

Agora, a Grécia terá de abordar a questão dos gastos públicos armada de facão. Os cortes serão menos drásticos do que teriam sido na ausência do resgate, mas ainda assim serão profundos e dolorosos. Isso significa também que a previsão oficial do governo - segundo a qual a economia encolherá apenas 0,3% em 2010 e voltará a crescer em 2011 - é demasiadamente otimista. A economia grega sofrerá contração de ao menos 5% em 2010, e uma volta do crescimento em 2011 é improvável. Com o encolhimento do denominador da proporção entre dívida e PIB, não parece óbvio que o governo seja capaz de trazer as finanças públicas a um patamar sustentável. Será que a moratória é inevitável? Não necessariamente. Mas ela se torna mais provável a cada dia.

O que nos traz à Califórnia. As equipes da televisão europeia perguntam se os problemas do Estado não são igualmente graves. Será que não estamos na mesma situação, especialmente por participarmos de uma união monetária com os outros 49 Estados e não podermos recorrer à desvalorização? O leitor já deve ter adivinhado que eu considero a comparação absolutamente equivocada. Uma das diferenças está no vigor das duas economias. A Califórnia conta com o Vale do Silício, a biotecnologia, Hollywood, a agricultura mais produtiva do mundo, e duas das maiores universidades do planeta. A Grécia tem a Acrópole. A Califórnia exporta maquinário elétrico e industrial, computadores, equipamento ótico, fotográfico e médico, e aeronaves. Exporta serviços profissionais e empresariais, além de propriedade intelectual. A Grécia exporta - estou exagerando um pouco para ser mais claro - serviços de transporte marítimo e azeite de oliva.

Além de ter o que exportar, a Califórnia tem para quem exportar. A previsão do crescimento real no PIB americano para 2010 é de 3,1%, mas de apenas 1,1% para a zona do euro.

Além disso, os dois problemas orçamentários são substancialmente diferentes. Enquanto o déficit grego equivale a 13% do PIB, o da Califórnia representa apenas 2% do produto estadual. Admito que a comparação é complicada pelo fato de Sacramento (a capital da Califórnia) consumir apenas 11% da renda estadual em impostos, enquanto Atenas consome 30% da renda grega. Ainda assim, as duas crises são muito diferentes. Para equilibrar o seu orçamento, a Califórnia terá de cortar seus gastos em 12,5%. A Grécia terá de cortar os seus em 33%.

E, para qualquer um que vá escolher entre bônus emitidos pela Califórnia e pela Grécia, vale a pena saber que a Constituição da Califórnia requer que a receita pública seja usada em primeiro lugar para gastos de educação, e, em segundo, para pagar os detentores de títulos emitidos pelo Estado. Só depois que os compromissos com esses credores forem honrados, é que qualquer outro pagamento é feito. Isso implica em custos de financiamento mais baixos para a Califórnia.

Ajustes. Ambas as economias enfrentam a necessidade de dolorosos ajustes estruturais. Mas vale perguntar: qual delas conta com a maior capacidade de ajuste? Na Grécia, a possibilidade de cortes de 10% no salário dos funcionários públicos é debatida. Na Califórnia isto já ocorreu, por meio de uma combinação de cortes salariais e dias de licença.

Em certo nível, os desafios enfrentados por Washington são ainda piores do que os enfrentados por Sacramento. O déficit orçamentário dos EUA supera o tamanho da economia de quase todos os países do mundo, com exceção de seis deles. O déficit federal, atualmente em 10% do PIB americano, lembra mais a situação grega do que a californiana.

A dinâmica da dívida também é ameaçadora. As trajetórias atuais da renda e do gasto do governo americano implicam que a dívida governamental terá crescido de 40% do PIB antes da crise para 75% já em 2015 - ou seja, antes que sejam sentidos os efeitos dos custos de atendimento médico e previdenciário associados à aposentadoria da geração do pós-guerra. E, a partir deste ponto, as coisas só podem piorar. Em 2035, o gasto federal com os programas Medicaid e Medicare aumentará dos atuais 5% para 10% do PIB. A reforma do sistema de saúde não solucionou esse problema porque nada pode impedir a aposentadoria da geração do pós-guerra.

Para os EUA, não será fácil lidar com uma proporção de 75% entre endividamento e PIB. Esse tipo de fardo pode ser administrado por um governo federal que extraia 30% a 40% da renda nacional por meio de impostos, como costuma ocorrer na Europa. Mas isso é mais difícil para o governo americano, que arrecada com impostos apenas 19% do PIB.

Obviamente, o país tem pela frente um trabalho e tanto. Mas o paralelo com a Grécia ainda se mostra exagerado. Enquanto a Grécia precisa resolver seu problema neste ano para evitar uma moratória, os EUA têm até meados da década para chegar a um consenso. O país tem também sua própria política monetária, o que significa a possibilidade de ajustes na taxa de câmbio. Um dólar enfraquecido, capaz de tornar as exportações americanas mais competitivas, pode compensar a restrição aos gastos domésticos. O governo Obama fala em dobrar o volume de exportações dos EUA em cinco anos, e não na depreciação do dólar. Mas quem quer que pense no assunto sabe que as duas coisas caminham juntas.

A situação da Grécia é um alerta para os governos esbanjadores de todo o mundo. Mas nem todos enfrentam problemas de igual seriedade. Governos - e investidores - devem dar um passo atrás e respirar fundo antes de concluir o pior. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

O AUTOR É PROFESSOR DE ECONOMIA E CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, EM BERKELEY

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