A caminho da desindustrialização?

Não falta dramaticidade à avaliação do diretor do Departamento de Pesquisa e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini, sobre a situação da indústria no País. "O Brasil está em processo de desindustrialização", diz ele. "Nunca a indústria brasileira enfrentou tanto risco como agora."

JORGE J. OKUBARO, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Francini apresenta números que impressionam: a indústria já respondeu por 27% do PIB, mas hoje é responsável por 15%. Se o processo continuar, a participação cairá mais ainda, quem sabe até 10% do PIB. "Aí, a situação será ainda mais complicada."

Dirigentes empresariais de alguns setores industriais, como o de produtos elétricos e eletrônicos, já vêm advertindo para os riscos desse processo há algum tempo. Dados preocupantes, de fato, não faltam para sustentar advertências como essas. Eles surgem mensalmente nos boletins do governo sobre o desempenho da balança comercial brasileira.

É crescente e se estende para um número cada vez maior de setores o saldo negativo no comércio exterior da indústria. Embora as exportações cresçam, as importações crescem num ritmo muito mais rápido. Análises divulgadas pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostram que, nos três primeiros trimestres do ano, o déficit comercial dos bens tipicamente fabricados pela indústria de transformação alcançou US$ 25,8 bilhões, o maior da história recente.

Se se lembrar que o resultado dos nove primeiros meses de 2005 tinha sido um superávit de US$ 22,4 bilhões, é possível ver a rapidez e a intensidade da deterioração da balança comercial da indústria. Até 2007, o saldo ainda foi positivo. Desde 2008, porém, a balança dos bens típicos da indústria de transformação registra déficit.

Quando se consideram as quatro categorias de produtos definidas pela intensidade tecnológica, o que se observa é que em três delas os resultados estão piorando. E são justamente as categorias que usam mais intensivamente a tecnologia. As exportações cresceram mais do que as importações somente na categoria dos produtos de baixa intensidade tecnológica.

Outra característica preocupante do desempenho da balança da indústria nos últimos meses é a lenta redução da participação dos bens de capital no total das importações e o aumento da fatia dos bens intermediários e de consumo durável. O aumento constante de produtos de consumo sugere que as empresas podem estar importando artigos que eram produzidos internamente, o que tende a resultar, como advertem os dirigentes do setor industrial, em algum grau de desindustrialização.

Será essa uma tendência persistente? As perspectivas para a produção industrial - importada ou doméstica - são animadoras. A massa salarial deverá crescer até 7% em 2010 (bem mais do que o aumento de 3,9% em 2009) e manter um ritmo intenso de alta também em 2011. A demanda por produtos de consumo deverá estimular investimentos, o que, por sua vez, alimentará a indústria de máquinas e equipamentos. Além disso, se realizados os investimentos programados em setores considerados estratégicos, como energia (eletricidade, gás, petróleo), siderurgia e celulose, a produção industrial terá outro forte estímulo.

O temor de parte dos dirigentes industriais é o de que fatias cada vez maiores dessa demanda sejam atendidas por fabricantes do exterior, o que aceleraria a desindustrialização.

A desvalorização do dólar é um dos fatores que fazem crescer as importações e diminuir a velocidade de crescimento das exportações, mas este é um problema internacional para o qual os governos interessados, inclusive o brasileiro, não estão conseguindo encontrar uma solução. Frequentes críticos do governo por causa da valorização do real, os industriais exportadores parecem ter entendido a extensão do problema atual.

Para os exportadores, haveria alguma compensação à desvantagem cambial se itens importantes do chamado custo Brasil fossem cortados, entre os quais a tributação que ainda incide sobre os produtos industrializados, o atraso da restituição dos créditos tributários sobre exportações e a deficiência da infraestrutura.

Eis aí um tema sobre o qual se deveria debruçar o próximo governo com a urgência que o caso requer.

JORNALISTA, É AUTOR DO LIVRO "O SÚDITO - BANZAI, MASSATERU!" (EDITORA TERCEIRO NOME). E-MAIL: JORGE.OKUBARO@GRUPOESTADO.COM.BR Celso Ming está em viagem de trabalho

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