A cara esquisita da inflação no Brasil
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A cara esquisita da inflação no Brasil

A inflação interna avançou em consequência do aumento do dólar em reais, mas já existem sinais que indicam desaceleração desse movimento

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 19h42

A inflação que rola no Brasil e, em parte, no mundo é mesmo esquisita. Por aqui já tivemos a inflação do chuchu (tempos do ministro Mário Henrique Simonsen), a inflação do feijão e do bife (tempos do então ministro Delfim Netto). A de agora lembra o ornitorrinco, animal que tem bico de pato, mas não é pato; bota ovo, mas não é nem réptil nem ave; é mamífero, mas a fêmea não tem mamas.

Ao elevar nesta quarta-feira os juros básicos (Selic) para 3,5% ao ano e acenar com nova alta nas próximas reuniões do Copom, o Banco Central avisou que espera para este ano uma inflação de 5,1% e, para 2022, para quando está focada a política de juros, inflação de 3,4%. E repete que essa alta de preços é temporária, o que implica o diagnóstico de que não é consequência de um aumento anormal do consumo, mas apenas fruto da disparada dos preços das commodities que, em parte, é o resultado da recomposição de fluxos estancados pela pandemia.

No que está dito acima já vão algumas “ornitorrincices”, de diagnóstico e de política prática. No caso do Brasil, a demanda por bens e serviços está muito enfraquecida pelo isolamento social e pela falta de renda da população. Consumo aquecido demais não é a causa da alta de preços no Brasil. Por isso, também, não vai ser o encurtamento da ração de moeda (alta de juros) que vai conter a inflação. Os juros mais altos apenas combaterão eventuais efeitos colaterais da inflação e deverão conter alguma fúria remarcatória no setor de serviços.

Menos moeda na economia deve ter também o objetivo de evitar que toda a alta dos preços no atacado (no Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), que vai no gráfico, o atacado corresponde a 60% dos preços) se transfira para o varejo (custo de vida, ou Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), também no gráfico).


No entanto, vistas as coisas com mais amplitude, não dá para deixar de reconhecer que a disparada dos preços das commodities (minérios, grãos - soja e milho - e, em parte, do petróleo) tem, sim, a ver com o salto do consumo mundial desses produtos, que não se explica apenas com movimentos de recomposição de estoques e de retomada dos fluxos de comércio.

Esse aumento do consumo mundial guarda importante relação com o impressionante despejo de moeda nos mercados, tanto pelos grandes bancos centrais como pelos Tesouros dos países de ponta. E, no entanto, nenhum dos grandes bancos centrais pretende, neste ano, aumentar os juros que hoje se situam ao redor de zero por cento ao ano, embora pareçam propensos a começar a aumentá-los a partir de 2022.

A inflação interna, especialmente a da alta dos combustíveis e dos alimentos cotados em moeda estrangeira, avançou em consequência de outro fator: o do aumento do dólar em reais. Por aí, a inflação deve começar a ceder. O dólar passou a cair há algumas semanas não porque as incertezas que o puxaram para cima desapareceram. (A questão fiscal está aí sem solução, e os desarranjos da política sanitária no combate à pandemia, também.)

 A principal razão da queda do dólar nas últimas semanas é a exuberância das contas externas: a disparada das commodities aumentou as receitas dos exportadores. Há mais dólares entrando do que saindo e o câmbio passou a refletir a nova relação entre oferta e procura de moeda estrangeira.

A baixa do dólar deverá reduzir a pressão sobre os preços dos combustíveis e dos alimentos e, por aí, deve produzir enfraquecimento da inflação. Não é despropositado imaginar que, dentro de mais algumas semanas, o dólar ficará mais próximo dos R$ 4,90 do que dos R$ 5,50.

Como outras incertezas continuam aí, não dá para avaliar com que intensidade a valorização do real ajudará a combater a alta dos preços. A principal delas tem a ver com a disponibilidade de vacina. Se não houver maiores atrasos no programa de vacinação, mais desgoverno e novas cepas extremamente graves a combater, é possível apostar em que, até o fim deste ano, a maioria da população classificada como grupo de risco esteja imunizada.

Se isso se confirmar, até lá a demanda – hoje fortemente reprimida –, deverá aumentar e, eventualmente, pressionar por nova rodada de alta de preços, se não vier acompanhada de reforço da oferta de bens e serviços.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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