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A carga de preconceitos entre Ocidente e Oriente

A divisão do mundo é invenção das potências colonizadoras para designar sua situação hegemônica, argumenta o filólogo Edward Said

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2019 | 19h00

Quem está desorientado está sem rumo. Quem está desnorteado também está sem rumo. Sujeito sem Oriente ou sem Norte está perdido por aí.

Essas não são designações criadas por simples acaso e depois consagradas pelo uso. Como já nos anos 70 demonstrou o crítico literário e filólogo Edward Said no seu clássico Orientalismo (edição em português pela Companhia das Letras), “o Oriente é uma invenção do Ocidente”.

Mais do que isso, designações desse tipo são o resultado de relações de poder e da percepção hegemônica de potências ocidentais sobre os povos e as culturas “do lado de lá”. Há, portanto, razões políticas pelas quais ninguém diz que um sujeito sem rumo está sem Ocidente ou sem Sul, “desocidentalizado” ou “dessulinizado”, digamos assim.

Por que este assunto? Estes tempos de Natal proporcionam o que, em seu jargão, os jornalistas chamam de gancho. O Oriente de alguma maneira é tema de Natal, na medida em que o evangelista Mateus afirma que os três reis magos – Baltazar, Melchior e Gaspar, nomes criados por certa tradição cristã – chegaram a Belém com presentes ao Menino Jesus, provenientes “do Oriente”. São criaturas do lado de lá.

Alguns séculos antes, ninguém falava em Ocidente e Oriente. Mas já havia indicações do surgimento desses conceitos carregados de relações de poder. No início de sua História, Homero já tratava dos conflitos entre Europa e Ásia, que se acirraram nas Guerras Pérsicas. Suas primeiras manifestações, escreveu Heródoto, estão ligadas a raptos de mulheres “do outro lado”. Um deles foi o rapto de Europa por Zeus, disfarçado em touro branco, e o outro, o rapto da espartana (ou europeia) Helena pelo príncipe troiano (ou asiático) Alexandre Páris.

Essas relações, com sua carga de conceitos e preconceitos, foram consolidadas pelas conquistas de Alexandre, que expandiu a cultura helênica até as margens do Indo. Quando dividiu seu território, Constantino criou o Império do Ocidente, com capital em Roma, e o do Oriente, com capital em Constantinopla. Entre os séculos 11 e 13, as Cruzadas tentaram impor os valores ocidentais sobre os do Oriente Médio. 

Mais tarde, para além dos reinos do Grande Khan, o Oriente se tornou cobiçada fonte das especiarias. Para chegar a elas, era preciso viajar a Leste por terra ou por mares nunca dantes navegados. Até que apareceu Colombo com a ideia de que o Oriente poderia ser atingido pelo Ocidente. E trilhou esse caminho. Depois, Portugal, Espanha, Holanda, França, Inglaterra e Estados Unidos colonizaram vastos territórios no Oriente. 

A relação Norte-Sul também enfrenta tensões equivalentes. Os latinos chamavam o Equador de meridiem. É a faixa da Terra onde reina o sol. Por onde passa, quando está a pino, é sempre meio-dia. Ainda que se situasse no meio do planeta, o meio-dia passou a ser sinônimo de Sul, porque assim parecia aos habitantes do Norte. Paragens meridionais ficam ao Sul, não importando se estejam até acima do Equador. Para os italianos, os territórios atrasados ao Sul da bota, onde reina a máfia, constituem o mezzoggiorno.

Alguém pode objetar que há bem mais do que questões puramente culturais e políticas que impuseram o Norte como referência. Há os ditames da bússola. O determinante são portanto os polos magnéticos do Planeta, fenômeno imposto pelas leis da geofísica.

Se for por aí, convém ter em conta que, na média, a cada 200 mil ou 300 mil anos, os polos magnéticos da Terra se invertem. A última vez foi há cerca de 780 mil anos. Hoje, o Norte magnético se desloca em direção à Sibéria à razão de 40 quilômetros por ano. Desde meados do século 19, afastou-se cerca 2.250 quilômetros. E, a qualquer momento, por obra dos deslocamentos das massas de ferro existentes no núcleo da Terra e para possível pânico entre os usuários de equipamentos controlados pelo GPS, os polos podem se inverter mais uma vez, como advertem os geofísicos. 

Said argumenta que, em tempos modernos, a divisão do mundo entre Ocidente e Oriente é invenção das potências colonizadoras para designar não apenas sua situação hegemônica, mas, também, sua cultura e sua tecnologia “superiores” às dos povos do lado de lá. É o que também transpareceu na maneira depreciativa com que os americanos se referiram à cultura dos povos orientais, ao longo das guerras da Coreia, do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão. 

Não é à toa que o presidente Donald Trump se refere, também de maneira depreciativa, à ascensão da China à condição de grande potência global. Mas, nesse caso, quem mesmo está desorientado – ou desnorteado?

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