Shannon Stapleton/Reuters
Shannon Stapleton/Reuters

A carta de Buffett que o mercado quer ler

Em sua 50ª edição, o documento, endereçado anualmente aos acionistas do Berkshire, mais confundiu que esclareceu

The Economist

08 de março de 2015 | 02h05

As cartas que Warren Buffett envia anualmente aos acionistas do conglomerado Berkshire Hathaway constituem alguns dos documentos mais importantes do mundo dos negócios. Durante 50 anos, ele apresentou uma análise fria e honesta da companhia por ele dirigida. Em 1999, Buffett refletiu sobre o pior ano da sua gestão. "O próprio inspetor Clouseau poderia achar o culpado do ano passado: seu presidente." Em sua carta mais recente, divulgada no dia 28 de fevereiro, ele admite ter cometido um "enorme engano" ao persistir com ações da Tesco, uma varejista britânica com sérios problemas.

Ao longo dos anos, as cartas também apresentaram uma explicação infalivelmente inteligente dos princípios gerais dos investimentos, despida de palavrório sem sentido. Não surpreende que sejam lidas no mundo inteiro. Guo Guangchang, o presidente do Fosun Group, um conglomerado chinês, é fã dele. Jamie Dimon, o presidente do JP Morgan Chase, formula as suas cartas baseando-se no sábio de Omaha. Entretanto, a 50.ª carta de Buffett aos acionistas é uma exceção, pois contribui mais para confundir do que para esclarecer, por duas razões.

Em primeiro lugar, porque não ataca as questões que pairam sobre o modelo de conglomerado da Berkshire e sua durabilidade. Em segundo lugar, pela discrição nada característica com que Buffett e seu sócio Charlie Munger - respectivamente de 84 e 91 anos - discutem como ou quando deixarão suas funções.

Em primeiro lugar, a questão do conglomerado. O Berkshire foi se transformando gradativamente de um veículo de investimentos que detém ações negociadas em bolsa numa coleção de empresas da qual é proprietário em parte ou totalmente, como a Heinz, fabricante de alimentos. Buffett faz uma defesa eloquente do Berkshire enquanto conglomerado, que, segundo ele, está se expandindo, "e procura incansavelmente expandir-se ainda mais". Ele adquire empresas que mantém para sempre, evita envolver-se em empresas fracas ou difíceis de entender, dá autonomia aos diretores, ignora o conselho de especialistas em investimentos e mantém os gastos gerais básicos extremamente baixos.

O escritório central do Berkshire emprega apenas 24 pessoas.

Mas a carta não se delonga para analisar até que ponto o sucesso do conglomerado se deve a Buffett e não ao seu modelo de empresa. Segundo o relatório anual regulamentar, é ele que toma "todas as principais decisões a respeito de alocação de capital".

A cultura que deixa os executivos felizes certamente deve muito a ele, assim como a fama do Berkshire de excelente depositário, o que é uma ótima razão pela qual as empresas familiares gostam de vender para ele. Munger, que escreve a própria carta, afirma que existe um "sistema Berkshire" que aguentará sua saída e a saída do seu chefe, mas levanta apenas hipóteses, sem prová-las.

Buffett costumava afirmar que o valor contábil do Berkshire por ação, e não seu preço por ação, era um ótimo indicador a longo prazo. Mas o valor contábil do grupo parou de apresentar resultados superiores aos do mercado de ações como um todo - na realidade, seus resultados têm sido inferiores aos do mercado em cinco dos últimos seis anos. Portanto, agora, Buffett começa a afirmar que o valor contábil deixou de ser um bom parâmetro, e a dar maior destaque ao preço por ação do Berkshire. Esse tipo de trapaça é um hábito de conglomerados menores do que o Berkshire, e não constitui uma indicação promissora.

Quanto à questão da sucessão, a mensagem é críptica. Em sua carta, Buffett diz: "Acredito que agora temos a pessoa certa para me suceder", mas se nega a especificar quem seja. A carta de Munger é menos vaga, mas não totalmente coerente. Ele menciona dois indivíduos, Ajit Jain (que dirige a principal operação de seguros do grupo) e a Greg Abel (à frente da operação de energia), segundo ele, diretores de "classe mundial".

Apesar da confiança que ele declara na próxima geração, Buffett parece inseguro quanto ao seu provável desempenho. Sua carta praticamente encarrega seu sucessor de uma estratégia predeterminada, afirmando que, durante 10 a 20 anos, não haverá distribuição de dividendos e nem buyback. Ele está ansioso que seu filho, Howard, assuma como "chairman" não executivo, agindo como salvaguarda em caso de "contratação de um diretor executivo errado".

Buffett é proprietário de cerca de 34% dos direitos de voto do Berkshire, mas também prometeu doar grande parte de sua fortuna - portanto, não se sabe ao certo até que ponto sua família poderá exercer alguma influência a longo prazo.

O Berkshire foi sempre uma empresa não convencional, desde seus primeiros investimentos na área ultrapassada dos seguros, até assumir o controle da Burlington Northern Santa Fé, operadora de ferrovias, durante a crise de 2009, e sua inabalável confiança nos Estados Unidos, que recebem 90% dos seus investimentos e onde ele diz que está "o veio principal das oportunidades". O Berkshire tem um valor de mercado de US$ 360 bilhões, e é a quarta empresa mais valiosa dos EUA - por isso, talvez, obteve o direito de fazer o que bem entender. Entretanto, de acordo com o padrão dos seus predecessores, a carta de Buffett aos acionistas, tanto quanto a de Munger, os deixa com mais interrogativos do que respostas.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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