ALEX SILVA/AE
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'A CCR não precisa de aporte de acionistas'

Mesmo com dois sócios da concessionária citados na Lava Jato, presidente diz que não houve piora no desempenho dos negócios

Entrevista com

Renato Vale, presidente do Grupo CCR

LUIZ GUILHERME GERBELLI E RICARDO GRINBAUM, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2015 | 02h03

Dos três maiores sócios do Grupo CCR, dois estão envolvidos na Operação Lava Jato: as construtoras Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez - cada uma com 17% da composição acionária do grupo. Nem por isso o presidente da CCR, Renato Vale, diz ter sentido uma piora na liberação de crédito ou no desempenho dos negócios.

"A CCR não é uma empresa que necessita mais de aporte de acionistas", afirmou. As dificuldades atuais, disse ele, ocorrem por causa do quadro geral da economia: recessão, inflação elevada e deterioração da confiança. Recentemente, depois de 20 anos, a CCR sofreu um revés. Em março, perdeu a concessão da ponte Rio-Niterói para a EcoRodovias.

A seguir os principais trechos da entrevista ao Estado.

Embora a CCR seja uma concessionária, muitas construtoras dizem que os bancos fecharam as portas para o crédito. Como está a situação?O grupo Andrade Gutierrez e a Camargo Corrêa são nossos acionistas, mas os investidores dessas duas empresas na CCR não têm nada a ver com construção. Inclusive as pessoas que frequentam o nosso conselho de administração não têm a ver com construção. A nossa empresa foi montada para ser uma 'viabilizadora' de investimento, serviços e infraestrutura. Evidentemente o mercado está mais difícil para todo mundo. Tem um cenário macroeconômico muito complicado com a expectativa de uma recessão de mais de 1% e inflação acima de 8%.

O fato, então, de a Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez serem citadas na Operação Lava Jato não muda nada para a CCR?

Por enquanto, zero. Pode algum dia ter algum tipo de contágio? Até imagino que possa por causa dessa confusão que é muito normal, de que a gente é uma empresa do mesmo grupo. Nós não somos uma empresa do mesmo grupo. Eles têm um investimento aqui. A gente tem tido um cuidado para deixar isso muito claro para todos. Fizemos roadshow específico nesse sentido, para mostrar como as coisas funcionam. O grupo Camargo e Andrade foram mentores da criação da CCR, que hoje é um investimento que tem vida própria.

Alguns bancos fecharam completamente as portas para construtoras. O negócio da CCR é concessão, mas não houve problemas?

Com os bancos que são nossos parceiros - com quem mais atuamos - nós tivemos zero de problema. Mas todo mundo está mais restritivo, quer estudar melhor o negócio.

Houve mais demora para liberar o crédito?

Não demora mais porque nós trabalhamos com planejamento de longo prazo. Então, sabemos, hoje, o dinheiro que vamos precisar daqui a 18 meses.

Mas longo prazo não fica comprometido?

Não, de novo, não. Nós assinamos um contrato com a MSVia, que é nossa empresa, com a ANTT para a concessão da BR-163, no Mato Grosso do Sul. Nós assinamos (o contrato) no ano passado e começamos os investimentos. Temos um ano para fazer 10% dos investimentos para começar a cobrar pedágio. O empréstimo do BNDES já saiu, nós recebemos o empréstimo ponte negociando o longo prazo. Isso é razoável? Puxa, é muito bom.

Nada atrasou do BNDES?

Atraso normal. Demorou mais 15 dias, absolutamente razoável.

Como fica a situação dos seus investidores daqui para frente? A empresa depende dessas empresas que estão sofrendo problemas por causa da Lava Jato?

Eu não dependo deles. A Camargo e a Andrade têm uma participação de 17% cada, participam do bloco de controle da CCR e definem o que a gente chama de objetivos gerais e diretrizes de cinco anos. Nós trabalhamos dentro desses objetivos. A partir daí, a gente não precisa de nenhum dos controladores para nada. Precisamos deles para a governança, tomar as decisões. A CCR não é uma empresa que necessita mais de aporte de acionistas. Pelo contrário. No ano passado, nós pagamos R$ 1,5 bilhão de dividendos.

Não está no horizonte a venda de uma participação da Camargo e da Andrade?

Nada. Zero no horizonte.

No início da conversa, o sr. disse que não vai mexer no plano de investimento?

Nada. São R$ 5 bilhões.

E esse montante é destinado a quais investimentos?

Basicamente são investimentos na duplicação da rodovia BR-163, no metrô da Bahia, a Transolímpica no Rio de Janeiro e no BH Airport.

E a ponte Rio-Niterói: por que a CCR perdeu a concessão?

É um caso clássico de sucesso. Há 20 anos nós entramos na ponte Rio-Niterói e ela estava caindo aos pedaços. Se vocês conhecessem o que estava por debaixo da ponte, ninguém passaria por lá. Cumprimos todas as obrigações contratuais e recuperamos a ponte. Todo mundo me pergunta se estou triste por ter perdido. Eu digo que não. Estou feliz de a gente ter cumprido o contrato e dado uma prova de que o contrato de concessões realmente pode ser uma solução. Agora, ganhar ou perder é oportunidade de quem está com mais vontade ou apetite. Espero que daqui a 30 anos os novos concessionários entreguem uma ponte melhor.

O sr. acha que os concorrentes foram agressivos demais?

Os concorrentes foram muito mais agressivos. E esse negócio é muito engraçado. Quando a gente conhece bem um assunto, você sabe exatamente o que ele custa e o trabalho que ele dá. É assim mesmo. E a pessoa que conhece menos o assunto pode ser dar ao luxo de arriscar algumas opiniões. Nós não podemos. Depois de eu estar lá há 20 anos, se eu errar no tráfego, eu sou maluco.

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