A cegueira de Greenspan

Alan Greenspan, o antigo oráculo do sistema financeiro global, convocado pela Comissão de Supervisão e Reforma do governo da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, que examina as causas do derretimento de Wall Street, ao ser questionado pelo presidente da Comissão, Henry A. Waxman, democrata da Califórnia, disse que cometeu "um erro ao supor que o interesse próprio das organizações, especificamente bancos e outros, era tal que isso as tornaria mais capacitadas para proteger seus acionistas e o patrimônio deles nas empresas".Greenspan, de 82 anos, que deixou a liderança do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) há dois anos, afirmou que o colapso do setor de hipotecas subprime e o vasto comércio, na maior parte oculto, de instrumentos financeiros de derivativos que foi gerado revelaram a "falha" da sua confiança absoluta nos livres mercados.Nas duas últimas décadas, fortunas foram feitas e perdidas com base nas declarações oraculares de Greenspan, mas essa sua frase é o exemplo impressionante da sua cegueira ideológica. Greenspan realmente acredita que bancos, corretoras, agências de classificação de crédito e seguradoras atuam de modo próprio? Mesmo ele precisa compreender que as pessoas que administram essas companhias é que decidem como elas devem reagir, mesmo às forças do mercado.Em finanças não existem reflexos autônomos. Greenspan acredita realmente que as pessoas no poder, tendo a oportunidade de fazer um grande negócio, colocam os interesses das suas instituições e acionistas em primeiro lugar? Por um segundo, esqueça o fato de que o ex-chairman do Fed passou mais de 20 anos da sua vida como discípulo da meia filósofa que se tornou romancista Ayn Rand, cujos conceitos de "egoísmo racional" e "individualismo" colocaram um "D" maiúsculo em desumano e que deu a gerações de estudantes universitários ingênuos uma base lógica intelectual para o seu egocentrismo juvenil.Greenspan vivenciou essa mesma fase que o resto dos americanos experimentou recentemente? A idéia de lealdade - ou, nesse caso, uma espécie de obrigação recíproca -, simplesmente não funciona mais em Wall Street ou em qualquer outra empresa americana. A idéia de que CEOs e outros executivos renunciariam à oportunidade de enriquecer para manter suas instituições solventes e o investimento dos seus acionistas íntegro parece pitoresca no panorama atual. E isso é verdade, até mesmo quando uma boa conduta dos executivos é supostamente garantida por uma participação no capital da empresa, como ocorre nos bancos de investimento.O que Greenspan e o resto dos cúmplices da farra gananciosa de Wall Street não querem admitir é que há algo errado na economia e no sistema financeiro que novos regulamentos sobre as operações e a sua divulgação não vão corrigir. Bem antes do derretimento do sistema financeiro, a parte que competia às empresas americanas no pacto social se dissolveu completamente. E essa corrosão não começou em cima mas embaixo - com o desprezo da lealdade da empresa para com homens e mulheres. Durante todo o tempo em que Greenspan permaneceu na estratosfera financeira as empresas americanas foram encorajadas a tratar seus empregados como mais uma "despesa". Wall Street recompensou, na verdade festejou, as empresas "duras" que tratavam os empregados como uma conta de luz. E as demissões entraram na categoria do "gerenciamento de custos". Ninguém nega a uma companhia que está prestes a fechar as portas o direito de cortar sua folha de pagamento, mas hoje ninguém pisca quando um CEO demite um empregado para favorecer um aumento no preço das ações ou reduzir o serviço de uma dívida feita irrefletidamente. Já faz tempo que aqueles que analisam a economia querem dizer que é imoral o fato de uma empresa lucrativa privar uma família do salário e da assistência à saúde e retirar de homens e mulheres esmerados a dignidade do trabalho."Não previ uma queda significativa (no mercado imobiliário) porque nunca observamos uma queda significativa nos preços", disse Greenspan à Comissão, acrescentando que a reputação do Fed em termos de previsão econômica continua inigualável. "Podemos tentar fazer melhor, mas previsões nunca são 100% exatas."Talvez apenas uma educação econômica prepare um homem para tirar uma conclusão da catástrofe como essa, declarando que seres humanos falíveis não são infalíveis. Algumas coisas, porém, são 100% exatas: sociedades onde poucos engordam sem limites à custa do trabalho de muitos não são justas; e não são nem mesmo produtivas por muito tempo.Países, como empresas, que defendem a idéia de que as pessoas podem perseguir seus próprios interesses mesmo que para isso devam ser desonestas com os outros acabam mal.Não existe recuperação para a falência moral.*Tim Rutten é colunista do ?The New York Times?

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