Ryan Rayburn/IMF/12/10/2017
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'A China é a locomotiva da recuperação global', diz Barry Eichengreen

Ao conseguir controlar a pandemia do novo coronavírus, a potência asiática vai se fortalecer ainda mais, ao contrário de EUA e Europa, diz Eichengreen

Entrevista com

Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia

Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

RIO - A forte retomada da economia da China, sinalizada nos dados do terceiro trimestre do Produto Interno Bruto (PIB) chinês, mostra que colocar o novo coronavírus sob controle, e mantê-lo assim, é o melhor para o crescimento econômico, segundo o economista americano Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. “Puro e simples”, disse Eichengreen, em entrevista, por e-mail, ao Estadão

Para o economista, a constatação fica clara quando se compara o desempenho dos Estados Unidos com o da China. Nos EUA, assim como na maioria dos países ocidentais, foram adotados estímulos fiscais e monetários “massivos”, enquanto o controle da pandemia está entre os piores do mundo, com o maior número de casos e mortes. Na China, os estímulos foram mais “moderados”, mas o “controle da pandemia foi muito superior”, afirmou Eichengreen.

Com uma retomada rápida após o pior da crise da covid-19, a China amplia seu papel como motor do crescimento global?

A minha visão, desde o início, é de que o sucesso na recuperação do choque e do fechamento de atividades por causa da covid-19 dependerá, primeiro e mais do que tudo, de um controle efetivo do vírus. A China está entre os países que têm sido mais efetivos no “achatamento da curva” (de números de casos e mortes). E agora está adotando medidas focadas contra surtos localizados. Isso significa que a recuperação pode continuar de forma ininterrupta. Os EUA e a Europa, em contraste, estão experimentando segunda e terceira ondas, com novos fechamentos e renovada hesitação dos trabalhadores de voltarem para as fábricas e para os escritórios. Então, o papel da China como atual motor do crescimento mundial só vai se fortalecer.

O que o desempenho da China mostra sobre o impacto econômico da pandemia?

A comparação da China com os EUA deixa a resposta clara. Os EUA aplicaram estímulos fiscais e monetários massivos, mas se saíram mal no controle da pandemia, enquanto os estímulos fiscal e monetário da China foram mais moderados, mas o seu controle da pandemia foi muito superior. A comparação deixa claro o que importa mais.

A China vai chegar ao posto de maior economia do mundo mais rapidamente por causa da pandemia?

Esse processo da China ultrapassar os EUA como maior economia do mundo estava a caminho muito antes da pandemia. A população da China é mais de três vezes maior (do que a dos EUA). À medida que a China se aproxima em termos de renda per capita, ainda que de forma incompleta, sua economia fica maior no agregado. Esperaria que a China crescesse duas vezes mais rapidamente do que os EUA em termos per capita no futuro possível de prever, e isso já era esperado antes da pandemia. Isso é o fundamental por trás dessa “troca de posições” (entre China e EUA). A covid-19 apenas acelera uma tendência que já estava a caminho.

O crescimento mais rápido da China é bom para a economia mundial?

Economistas falam do “efeito locomotiva”, e a China é claramente a locomotiva da atual recuperação. À medida que ela se recupera, vai sugar mais importações de matérias-primas do resto do mundo, incluindo a soja do Brasil. Um crescimento chinês mais rápido tem certamente um saldo positivo para a economia mundial.

O Brasil pode se beneficiar mais do que a média do avanço da “locomotiva”?

Não estou certo sobre isso. Um crescimento chinês mais rápido é bom para as exportações de soja do Brasil, mas é bom também para as exportações de maquinário da Alemanha.

Para enfrentar a crise, o governo chinês focou em medidas para as empresas e para os investimentos em infraestrutura, com expansão do crédito, e deixou de lado as transferências de renda para os mais pobres. Foi o caminho correto?

É surpreendente que (a China) não tenha feito mais para as famílias. Em parte, isso reflete a ausência de elevado desemprego, como experimentado por todo o lado. As estatais chinesas podem simplesmente ter sido instruídas a manter seus trabalhadores na folha de salários, mas a China está tentando, ao longo da maior parte da década, reequilibrar (a economia) do investimento para o consumo. Essa crise poderia ser uma oportunidade para reequilibrar mais, mas a oportunidade foi perdida. Enfatizar o investimento em vez do consumo na reposta à crise foi, em parte, uma “reação instintiva” (isso funcionou no passado, então é a solução testada) e em parte a alavanca mais fácil de puxar. Entregar cheques a cada domicílio é complicado, enquanto determinar bancos estatais a emprestar e empresas estatais a investir é mais direto.

Quais as consequências da rápida retomada da China para a guerra comercial com os EUA?

Depende da forma que a retomada tomar. Uma demanda mais forte dos consumidores na China significa que o crescimento da produção chinesa será consumido domesticamente, em vez de ser exportado, enquanto exportações adicionais (pela China) inflariam as tensões comerciais. Até agora, a contribuição do consumo para a retomada chinesa tem sido relativamente controlada. Isso leva a preocupações de que tensões comerciais renovadas estão a caminho, mas muito mais importante do que isso para o cenário comercial é quem ganhará a eleição presidencial dos EUA.

Como o resultado da eleição de novembro influenciará o cenário de médio prazo para a economia mundial?

No médio prazo, bancos de investimento dos EUA são unânimes na avaliação de que a economia americana crescerá mais rapidamente com (o candidato do Partido Democrata, Joe) Biden do que com (o presidente Donald) Trump. E, para a economia mundial, ter uma segunda locomotiva (americana) é melhor do que ter apenas uma (a China). Acrescente a isso o fato de que medidas para conter a covid-19 funcionariam melhor com Biden, o que será bom, mais tarde, para o crescimento. Também para a economia mundial, políticas mais previsíveis e menos tensão comercial saindo da Casa Branca com Biden seriam outro fator positivo.

O que outros países podem aprender com a retomada chinesa?

Coloque o vírus sob controle e o mantenha assim. Puro e simples.

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