A China e a mais longa linha de trem-bala

Os gastos no projeto ajudaram a economia chinesa duas vezes: em 2009, durante a crise financeira global, e no último trimestre do ano

KEITH, BRADSHER, INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2012 | 02h03

Artigo

Na manhã de quarta-feira a China começou a operar trens de alta velocidade na mais longa linha férrea do mundo, cobrindo em oito horas uma distância praticamente igual à de Nova York até Key West, na Flórida, ou de Londres, atravessando a Europa, até Belgrado.

Trens-bala trafegando a uma velocidade de 300 quilômetros por hora iniciaram o serviço regular entre Pequim e Guangzou, a principal metrópole a sudeste da China. Os trens mais antigos ainda em operação trafegam numa linha paralela e levam 21 horas para fazer o mesmo percurso. Os trens Amtrak, de Nova York a Miami, uma distância mais curta, ainda levam quase 30 horas.

A finalização dessa linha ligando Pequim a Guangzou é o mais recente indicativo de que a China retomou a construção rápida de um dos maiores e mais ambiciosos projetos de infraestrutura do mundo, uma rede de quatro estradas de ferro ligando o norte ao sul e quatro ligando leste a oeste, que atravessam o país.

Os gastos generosos no projeto ajudaram a impulsionar a economia chinesa duas vezes: em 2009, durante a crise financeira global, e novamente neste último trimestre, depois de uma breve, mas severa, desaceleração econômica verificada no trimestre anterior.

A contratação de 100 mil trabalhadores por linha férrea reduziu o desemprego, mesmo quando a construção no setor privado passa por uma desaceleração em razão dos limites impostos à especulação imobiliária.

E essa rede nacional ajudou a reduzir a poluição do ar nas cidades chinesas e a demanda por diesel importado, liberando a capacidade das linhas férreas mais antigas para transporte de mercadorias, no lugar dos caminhões mais caros e mais poluentes.

Mas o sistema de trens de alta velocidade também foi bastante controvertido na China. A dívida para financiar a construção das linhas chegou a US$ 640 bilhões, sendo uma das razões mais visíveis do aumento da dívida total do país em relação à produção econômica e se aproximando dos níveis registrados no Ocidente.

Cada trem de passageiros retirado das linhas mais lentas dá espaço para três trens de carga, porque os trens de passageiros trafegam tão rápido que obrigam os trens de carga a parar frequentemente. Mas, embora os trens de alta velocidade tenham sido importantes para o aumento drástico do transporte ferroviário de carga, o Ministério das Ferrovias ainda não sabe de que maneira cobrar das grandes transportadoras de carga, muitas delas empresas estatais politicamente influentes, parte do custo das linhas de alta velocidade, que transportam apenas passageiros.

Os trens de alta velocidade também são muito mais caros que os trens mais antigos. Um assento na segunda classe nos novos trens-bala de Pequim a Guangzou custa 865 yuans (US$ 138), comparado com os 416 yuans (US$ 68)cobrados pelo assento mais barato em trens mais antigos, que também oferecem lugares estreitos e desconfortáveis por 251 yuans (US$ 40).

As preocupações com essa rede de trens de alta velocidade chegaram ao ápice em julho de 2011, quando um trem-bala colidiu violentamente com outro próximo de Wenzhou, no sudeste da China, matando 40 pessoas. Uma investigação concluiu que um equipamento de sinalização quebrado foi o responsável pelo acidente. A China vinha operando trens de alta velocidade a 350 quilômetros por hora e, após aquele acidente, reduziu a velocidade a 300 quilômetros. O acidente deixou clara a preocupação com a velocidade com que a China construiu seu sistema de linhas férreas para trens de alta velocidade.

A primeira linha, de Pequim a Tianjin, foi inaugurada uma semana antes da Olimpíada de 2008. Depois de pouco mais de quatro anos, o país conta agora com 9.349 quilômetros de linhas.

O sistema de aviação da China tem uma boa reputação internacional no campo da segurança e acidentes fatais ocasionais não chamaram muita atenção. Especialistas em segurança de transporte atribuem a fascinação da população com relação ao acidente em Wenzhou em parte à novidade do sistema e em parte à desconfiança dos chineses com relação ao que consideram tecnologia doméstica, ao contrário dos jatos da Boeing ou Airbus usados pelas empresas aéreas chinesas.

Entretanto, os executivos das ferrovias japonesas se queixam de que a tecnologia chinesa é muito copiada da deles, acusação que seus contrapartes chineses negam energicamente.

A principal alternativa ao trem para muitos chineses está nas rodovias, cuja reputação é péssima pelos padrões internacionais. Acidentes periódicos de ônibus que fazem ligação entre cidades têm provocado a morte de dezenas de pessoas de uma só vez, ao passo que acidentes com carros particulares são frequentes num país onde quatro quintos dos novos carros são vendidos para motoristas principiantes, com pouca experiência na direção de um automóvel.

Os voos entre Pequim e Guangzou duram 3h15. Mas, na China, os viajantes precisam chegar ao aeroporto pelo menos uma hora antes do voo, em comparação com os 20 minutos exigidos no caso dos trens-bala, e os aeroportos costumam ficar mais distantes do centro da cidade do que as estações ferroviárias que abrigam esses trens.

A compra de terra é a parte mais difícil para a construção de linhas férreas para trens-bala no Ocidente, porque os trilhos precisam estar perfeitamente em linha reta. Este também tem sido um problema na China. Embora os governos provinciais e locais tenham forçado os proprietários a vender seu terreno para a construção das linhas, houve conflitos por causa da valorização da terra perto das estações ferroviárias. O resultado foi que poucas lojas e outros comércios surgiram em torno dessas estações por onde passam dezenas de milhares de pessoas diariamente.

O segmento na direção sul da nova ferrovia, que faz o percurso de Guangzou e Wuhan, foi inaugurado há quase três anos e já está congestionado, o que limita o número de assentos disponíveis para uma viagem em todo o percurso até Pequim durante as horas de pico. Os viajantes regulares disseram que os trens de 800 lugares, com frequência, já têm os assentos todos vendidos antecipadamente no caso de pelo menos 10 trens nas manhãs de segunda-feira e noites de sexta-feira, apesar de partirem a cada quatro minutos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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