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Gilles Lapouge
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A China e o luxo

As joalherias da Praça Vendôme, em Paris, os palácios das mil e uma noites cujas fachadas cintilam à margem do Rio Sena, as lojas de artigos em couro, os grandes estilistas de moda, as butiques de sapatos especializadas em pés delicados, chiques e frágeis, todo este pequeno mundo observa alarmado o que vem ocorrendo desde setembro em Hong Kong.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2014 | 02h04

O fato é que em Hong Kong, desde o mês de setembro, estudantes e democratas se agitam nas ruas e se recusam a que Pequim imponha sua "mão de ferro" sobre a antiga colônia britânica. Na verdade, Hong Kong não só constitui cabeça de ponte entre a China e o resto do mundo, mas abriga também todas as butiques do alto luxo europeu, de Cartier a Hermès. E agora, devido aos movimentos de protesto, essas butiques estão desertas.

Esta é a lei cruel da globalização: estudantes chineses não estão contentes em Hong Kong e a marca Kering desmorona em Paris. A empresa divulgou um faturamento em queda de 5% no terceiro trimestre no seu segmento de produtos de luxo. Sofreu uma queda de 3,7% no índice CAC 40, da Bolsa de Paris. Kering é o mais poderoso grupo de vestuário do mundo.

Antigo Grupo Pinault, hoje a empresa reúne toda uma constelação de marcas de sonho: Gucci e Saint Laurent, o fabricante de sapatos de luxo Sergio Rossi, além de Balenciaga, Bottega Veneta e outros.

O resultado dos confrontos em Hong Kong tem sido fulminante. E é fácil de entender se considerarmos o papel exorbitante de Hong Kong como mercado consumidor de produtos de luxo.

A ex-colônia britânica representa quase 10% das vendas mundiais de produtos de luxo. Em alguns casos, sua posição é ainda mais hegemônica. Por exemplo, o grupo Richemont (Cartier-Piaget-Vacheron, IWC) e o Swatch Group enviam para Hong Kong até 20% da sua produção.

A esta causa imediata acrescentam-se outros gargalos. Na China, hábitos milenares criaram a "cultura do presente". Uma tradição que o regime comunista de Pequim não erradicou. Contudo, com a desaceleração econômica (relativa pois no ano passado a China ainda registrou um crescimento de 7%, mas esta porcentagem é considerada muito frágil em Pequim) decretos severos passaram a regulamentar a tradição "do presente".

É comum na China se agradecer um funcionário público oferecendo a ele um relógio de marca, um perfume delicioso, uma joia. Ora, desde 2013 tal comportamento é rigorosamente regulamentado.

Diante da retração do mercado de Hong Kong e da China, as marcas procuram reagir adotando medidas agressivas. As butiques estrangeiras vêm gastando fortunas para organizar festas suntuosas. Há alguns dias, a Hermès inaugurou seu primeiro ponto de venda em Xangai. Para comemorar, a empresa alugou um imóvel em Xangai e transformou-se num "palácio das mil e uma noites" por 24 horas.

Enfim, alguns sugerem uma outra explicação para esse "balde de água fria" no caso das exportações europeias de artigos de luxo para a China. Há alguns anos, as grandes marcas abriram inúmeras butiques na China, uma mais cara que a outra. A marca Vuitton possui 50 lojas em 33 cidades. Gucci, 61. Cartier, apenas 36.

Mas há alguns anos o governo chinês vem cobrando taxas pesadíssimas sobre os artigos de luxo. Seu preço, em comparação com o praticado na Europa, é 40% superior. Além disso, as belas e elegantes damas chinesas têm o hábito de fazer seu "mercado de diamantes" não mais em território chinês, mas diretamente em Paris, Milão ou Londres.

A consultoria Bain & Company avaliou esta mudança de comportamento: hoje, as mulheres chinesas compram três meses mais no estrangeiro do que na China./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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