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A China joga wei qi

Na iminência de guerra comercial entre Washington e Pequim, comentaristas veem a relação entre esses gigantes como uma complexa partida de xadrez, mas trata-se de um processo mais complexo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2019 | 21h00

Por força de sua tradição milenar, a China não é de drásticas respostas retaliadoras. Por isso, quando, na segunda-feira, seu governo anunciou que, como revide às sobretaxações a suas exportações pelos Estados Unidos, aumentaria suas tarifas aduaneiras sobre US$ 60 bilhões em importações dos Estados Unidos, os analistas internacionais se surpreenderam e as bolsas internacionais despencaram.

Estaria o mundo na iminência de sofrer as consequências ruins que proviessem de uma ruptura nas relações de comércio entre as duas maiores potências econômicas do mundo? Que desfecho esperar desse enfrentamento entre gigantes?

Certos comentaristas tendem a ver a guerra comercial entre Estados Unidos e China como uma complexa partida de xadrez, em que cada lado tenta derrubar o rei adversário com uma combinação de jogadas de fúria.

Mas a China não joga xadrez, adverte Henry Kissinger em seu livro Sobre a China (editora Objetiva). Ninguém melhor do que o ex-secretário de Estado do governo Nixon sabe o que é negociar com o antigo Império do Meio. Ele próprio foi o principal negociador dos Estados Unidos em três governos, quando afinal começou a aproximação com a China. Até o lançamento do livro, em 2011, Kissinger havia completado mais de 50 viagens oficiais e particulares à China, conversou e debateu exaustivamente com as principais autoridades do primeiro e do segundo escalões da China, desde Mao até Deng. Se há nos Estados Unidos quem saiba como os chineses tratam de seus negócios com outras potências, este é Henry Kissinger.

A China joga, na verdade, o wei qi (pronúncia aproximada: uei tchi), modalidade que no Japão leva o nome de go. Trata-se de um tabuleiro quadrado de 19 por 19 linhas horizontais e verticais. Os jogadores dispõem de 180 pedras cada um que vão distribuindo nas intersecções de linhas para preencher os espaços vazios, em qualquer área do tabuleiro, com objetivo de produzir o cerco estratégico do adversário.

Está equivocado quem pensa que os negociadores chineses estejam a cada momento dispostos a um golpe heroico para destruir o governo dos Estados Unidos. A China conduz um processo mais complexo, que busca sucessivas vantagens relativas. Até mesmo as retaliações comerciais anunciadas no início desta semana devem ser vistas como medidas de alcance tático.

Na retórica belicista de Donald Trump, a China é um predador de mercados, de tecnologia e de empregos no resto do mundo, que precisa ser pronta e impiedosamente abatido. As manobras de Trump pretendem levar a China a importar mais dos americanos, mas, também, levá-la a desistir da política industrial que subsidia empresas chinesas. Querem, também, que contenha seu ímpeto na corrida tecnológica, que ameaça deixar para trás as empresas de ponta dos Estados Unidos.

Os chineses, por sua vez, dão aos conflitos com outras nações o tratamento tradicional, em que enfrentam um inimigo por vez, sem pressa, tirando proveito das suas debilidades ou, como dizia Mao, procurando “derrotar os bárbaros próximos com a ajuda dos bárbaros distantes”. Para os antigos da China, qualquer outro povo era bárbaro.

No auge da guerra fria, quando deparou com ameaças de um conflito nuclear que partisse tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética, o governo chinês avisou nas mesas de negociação que não temia os efeitos de uma catástrofe porque com mais de 1 bilhão de habitantes sempre sobrariam chineses para construir o futuro.

Esta coluna já lembrou em edições anteriores que, apesar das diferenças mais recentes, prevaleceu até agora a relação simbiótica no arranjo estratégico entre China e Estados Unidos. Enquanto Pequim vinha desfrutando do maior mercado de consumo do mundo (para o qual canalizava a maior parte de suas exportações de manufaturados), Washington também aproveitou a impressionante poupança interna da China para empurrar pelo menos US$ 1,1 trilhão em títulos do Tesouro, com os quais financiou a maior parte de seu déficit fiscal.

Como nem a China pode abrir mão de suas receitas com exportações aos Estados Unidos nem os Estados Unidos podem abrir mão do mercado chinês para seus títulos públicos, o desfecho mais provável no curto prazo ainda será um acordo. Falta saber qual das duas potências a longo prazo sairá melhor desse enfrentamento. Mas isso, definitivamente, não depende apenas do jogo comercial.

(Acima, a evolução do déficit comercial dos Estados Unidos com a China.)

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