A China que não compensa

A China é um grande parceiro comercial do Brasil. O primeiro. Passou os Estados Unidos. Ótimo? Não. Apenas mais ou menos. É um mercado distorcido, mesmo com pequeno superávit para o Brasil, neste semestre. Um resultado que, em números gerais, esconde graves desequilíbrios que ameaçam a indústria nacional, incapaz de competir com o protecionismo cambial e as vantagens chinesas no mercado mundial. Revela que estamos criando empregos e renda lá em detrimento de emprego e renda no Brasil. Por enquanto, está todo mundo feliz, com medo apenas da agressividade chinesa na compra de terras e minas no País.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

A China é importantíssima! Antes de continuar a coluna quer reafirmar que considera a China uma peça-chave na recuperação mundial. É, no momento, insubstituível. E será ainda por muito tempo. É essencial que siga investindo, importando, crescendo, como vem fazendo até agora. Sem isso, os países desenvolvidos correm o risco de cair de novo na recessão. No é um risco. Já é ameaça diante dos últimos indicadores. Dá alguma tranquilidade ver que a China está crescendo. Mas também preocupa muito ver que esse crescimento pode perder força se não for sustentado por um mercado interno que não se anima, onde há mais poupança que consumo.

China e Brasil. A expansão do comércio entre Brasil e China preocupa. E muito. Os números da balança comercial no primeiro semestre mostram que as exportações para a China aumentaram 25% no semestre, que a China foi o nosso maior mercado mesmo com o superávit comercial caindo de US$ 5,3 bilhões para US$ 3,5 bilhões.

Mas uma analise dos números mostra uma outra realidade. "Nos sete primeiro meses de 2010, as vendas de produtos para a China foram compostas de 83,5% de produtos básicos e 16,2% de industrializados(...)" em comparação com mesmo período do ano passado, informa o Ministério do Desenvolvimento em seu mais recente levantamento. E, acrescenta: "As importações de produtos chineses foram compostas por 2,1% de básicos e 97,9% de industrializados." Ou seja, praticamente tudo! Isso é mais grave porque é uma tendência que se acentua há meses

Tem mais. Entre janeiro e junho, só três produtos, grãos de soja (mesmo triturados), minérios de ferro e petróleo, representaram 79% das vendas totais para a China. Se acrescentarmos pasta química de madeira, ferro nióbio e mineiro de ferro aglomerado, chegamos a mais de 83,5% do total das exportações para o mercado chinês. Dados oficiais da balança de comércio bilateral.

Enquanto isso. Importamos nada menos que 97,9% de produtos industriais!!! Já sabiam disso? Pode ser, mas talvez não saibam que esse desequilíbrio aumentou no semestre. Os últimos dados oficiais do governo informam que as importações (brasileiras da China) de produtos industrializados apresentaram crescimento de 62,7% e as de básicos, 69% (em relação ao primeiro semestre de 2009.)

Ou seja, mês após mês, o Brasil está concentrando suas exportações para o maior parceiro comercial em apenas quatro produtos básicos, com o petróleo ganhando terreno. 15,9% do total. Sei que essa tem sido uma tendência do comércio do Brasil com o mundo, mas está se agravando no caso da China.

EUA ficaram de lado. O Brasil se entusiasmou demais com a China, importantíssima, sim, mas desprezou outros, como os Estados Unidos. Relegou-o a um segundo plano. Levantamento feito pelo Departamento de Economia do BNDES mostra que enquanto as exportações brasileiras entre 2004 e 2009 aumentaram em 58%, as vendas para os Estados Unidos cresceram apenas 22%. Hoje, o Brasil representa não mais que 1% do que eles importam. Em 2004 a nossa participação era de quase 4%.

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