''A China vai comprar tudo que puder''

Jornalista do ''Financial Times'' conta, em livro, como o Partido Comunista controla a [br]economia chinesa

Entrevista com

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

O Partido Comunista saiu da vida privada dos chineses, mas manteve firme controle de três instrumentos que garantem sua permanência no poder: o Exército, a propaganda e a nomeação dos ocupantes de todos os postos de comando do país.

A caneta para nomear e demitir dá ao partido controle direto sobre as estatais chinesas, que estão comprando ativos em todo o mundo, inclusive no Brasil, diz o jornalista australiano Richard McGregor, autor do livro The Party - The Secret World of China"s Communist Rulers (O Partido - O Mundo Secreto dos Dirigentes Comunistas da China), editado pela Penguim Books.

Ex-diretor do escritório do Financial Times na capital chinesa, McGregor ocupa desde 2009 o cargo de subeditor do jornal, em Londres. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Você começa seu livro com a citação de um professor da Universidade do Povo: "O partido é como Deus. Ele está em todos os lugares, só que você não pode vê-lo". Quão forte é a presença do partido na China de hoje?

O partido se retirou da vida privada das pessoas, que hoje podem ter seus negócios, viver onde quiserem, viajar ao exterior etc. Eles mantiveram o controle do que é importante - o poder político - e ainda recebem o crédito pela economia privada e o crescimento do país. O partido sobrevive por meio do controle de três "Ps": propaganda, pessoal e PLA (sigla em inglês para o Exército de Libertação Popular). Com isso, o sistema comunista se fortaleceu, porque se focou em poucas questões realmente importantes. O partido também se beneficiou do fato de que a China enriqueceu. Há uma situação bastante curiosa, na qual a legitimidade do Estado comunista é dada pela economia de mercado. Pouca gente se dá conta de que o Exército na China não pertence ao Estado, mas sim ao Partido Comunista. Nos Estados Unidos, na Inglaterra e até mesmo na Austrália sempre houve preocupação com a politização das Forças Armadas. Na China, é o contrário e as publicações militares sempre criticam o risco de despolitização do Exército. O Exército de Libertação Popular é o que está atrás do partido para garantir que ele permaneça no poder.

E os outros dois "Ps"?

A propaganda envolve a mídia e a história, o que é muito importante. O partido controla não apenas o país, mas a história da China. Quanto ao pessoal, eu acho que poucas pessoas fora da China têm ideia do sistema de nomeações, de recursos humanos do país. É como se no Brasil o governo tivesse o poder de nomear todos os membros do gabinete, os dirigentes de todos os jornais, os governantes de cada Estado, os prefeitos de todas as cidades, o presidente do Banco Central, o reitor de todas as universidades, o presidente da Petrobrás e de todas as outras companhias estatais. Todas as indicações passam pelo partido, que pode contratar e demitir. Eles não usam isso o tempo todo, porque querem que as estatais tenham sucesso comercial. Mas quando querem, eles usam esse poder.

O partido exige que as estatais tenham sucesso comercial, mas ao mesmo tempo mantém enorme controle sobre elas, não?

O governo quer que essas empresas tenham lucro e elas não são mais socorridas por tempo indefinido. Com os bancos, eles podem controlar o volume de empréstimos por meio do controle de seus CEOs. Visto de fora, o comunismo parece um sistema rígido, mas ele pode ser bem flexível. Muitas das estatais controladas pelo Partido estão comprando ativos em vários países, incluindo o Brasil, e em áreas estratégicas, como mineração e energia. Essas companhias podem ter um amplo grau de iniciativa desde que obedeçam à direção da política estabelecida pelo partido. Algumas dessas empresas estão fazendo ótimos negócios e são dirigidas por ótimos executivos. Mas, se eu fosse brasileiro, eu não deixaria uma empresa chinesa comprar a Vale, por exemplo. É algo para ter em mente porque os chineses vão comprar tudo o que puderem.

Considerando a capacidade de sobrevivência que o Partido demonstrou em um período no qual a China parecia mergulhada em um processo de transformação permanente, como você vê o futuro da organização?

O sistema aqui é muito resiliente. Eles controlam tudo o que é importante. Ninguém mais além das pessoas que são membros do partido tem a experiência, a rede e o conhecimento burocrático, os contatos globais, o conhecimento das instituições e o conhecimento especializado em determinadas áreas para gerir o país. Todo mundo, com uma ou duas exceções, está no partido. O maior teste para o partido virá quando a economia se desacelerar. Eles ainda têm muito que crescer e acredito que podem manter o atual sistema por pelo menos mais 5 ou 10 anos. Depois disso, quem sabe?

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