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'A cidade é o principal ativo da economia'

Plano Diretor é conjunto de diretrizes para impulsionar desenvolvimento de SP, diz, defendendo investimentos maciços em transportes

Entrevista com

HERALDO VAZ, ESPECIAL PARA O ESTADO., O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h13

O presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) em São Paulo, José Armênio de Brito Cruz, vê como tendência positiva a mistura de usos nos empreendimentos que reúnem habitação, trabalho e lazer. Apoia o retrofit como opção para revitalizar o centro da capital, que, na sua opinião, apresenta curva de crescimento. "As pessoas e o investidor voltaram a ter interesse pela região." Ele defende o Plano Diretor: "É um conjunto de diretrizes para impulsionar o desenvolvimento urbano". Resolver a crise de mobilidade, combater o déficit habitacional, qualificar o espaço público e planejar investimentos maciços em transportes, tudo integrado, é a direção para São Paulo. "A cidade é o ativo principal."

O Plano Diretor prevê adensamento nos eixos de transporte. Pode piorar a lotação do metrô?

Não se pode falar da lotação de maneira isolada. Adensamento, teoricamente, diminui a carga do transporte público. Muda a lógica de origem e destino. O centro da cidade está vazio, pode ter mais habitações. A mobilidade não é a única questão.

Quais são as outras?

Tem de haver habitações de todas as rendas e tipologias. Cidade eficiente produz mais. Se não for boa para viver, deixará de atrair melhores cérebros, não terá a melhor mão de obra nem melhores negócios. Uma cidade boa de viver, sim, atrai.

Mobilidade e déficit habitacional são as questões mais urgentes?

Eu não hierarquizo. A mobilidade aliada ao combate do déficit habitacional, integrados com qualificação dos espaços públicos, planejamento e investimentos maciços em transportes, é a direção para São Paulo.

Como fazer isso?

Existem programas, como o Casa Paulista, com objetivo de viabilizar 20 mil unidades habitacionais no centro, e não só de perfil popular. Tem de colocar as pessoas morando juntas. Porque o gueto, seja de pobre ou de rico, gera violência.

Bairro planejado e complexo multiúso são tendências positivas?

Vejo com bons olhos a mistura de usos, que é positiva por integrar trabalho e habitação. A mistura de renda é positiva porque rompe a segregação. Altas densidades são positivas por gerar economia. Só com densidade, se paga o metrô, cuja deficiência decorre da falta de investimentos. Tem muita gente para pouco metrô.

O que melhorou no centro?

Quando me formei, em 1982, talvez fosse o fundo do poço. Depois, só vi melhorar. Existe vida virtuosa aqui, pluralidade e convívio, coisas que outras regiões não têm. Os preços do metro quadrado aumentaram. As pessoas e o investidor voltaram a ter interesse pela região. Se pegar meu escritório, a maioria dos colaboradores mora no centro. Quando vim para cá, 20 anos atrás, não tinha ninguém. A equação do mercado no centro é diversa das outras.

Por que é diferente?

Demanda mais engenharia financeira do que terreno vazio. Numa calçada por onde passam 2 milhões de pessoas por dia, a estrutura de valor é outra. É outra equação. Não é pegar e fazer um prédio, com quatro vagas por apartamento, e varanda assim ou assado.

Retrofit é opção para o centro?

Seria ótimo. Os entraves estão na legislação, e faltam programas públicos. A estrutura e a arquitetura das décadas de 50 e 60 são muito boas. Um exemplo é esse prédio do IAB, construído em 1947. É eficiente.

Por que a lei barra o retrofit?

Porque não vê o prédio pronto. É legislação para prédio novo. Tem de haver lei especial para prédios existentes. Temos estrutura pronta, e não se pode exigir compartimentação como se o prédio fosse de papel.

Como se adequar às normas?

Essa é a questão. A sociedade investiu para fazer o prédio do IAB. A lei não pode condená-lo. Nesta rua aqui, há mais de 300 arquitetos. Em qualquer lugar do mundo seria visto como um cluster, que é desenvolvimento urbano. Nós mudamos essa região. O Ministério da Cultura discute territórios criativos. Isso está aqui.

Qual é o papel social da arquitetura?

Quem pensa a cidade é o arquiteto. Arquitetura é instrumento de qualidade de vida das pessoas no dia a dia. É a infraestrutura funcionando, é a boa luz entrando para gente trabalhar, é o espaço seguro, o respeito ao patrimônio. Arquitetura pensa o planejamento urbano.

Esse papel entra em conflito com o boom imobiliário?

O que existe são conflitos de projetos. Há projetos que priorizam o espaço público e os que não priorizam. Existe um projeto que segrega, e outro que não segrega.

Qual projeto o mercado está seguindo?

Eu não diria que é um. Vejo sinais muito positivos em alguns produtos.

Quais são?

São os que qualificam e aumentam o espaço público. Quando mistura gente de vários extratos sociais. Temos de ser capazes de morar ao lado de um diferente, ou a cidade adoece.

E os negativos?

São projetos segregadores, que afastam a convivência. E são em grande número. O que vejo toda hora na rua são muros e guaritas, além de fachadas, que não é o que se chama de fachada ativa, que tem a loja e a convivência na calçada.

Qual a diferença entre este plano e o anterior de 2001?

É uma evolução. Não dá para criticar o anterior, que era um diagnóstico eficiente dos problemas da cidade e uma lista de demandas, mas não chegou a pensar em como atender tudo. O novo plano procura achar formas e está abrindo caminho, ainda no começo, quando fala da estruturação nas planícies fluviais, das marginais Tietê e Pinheiros como macrozonas de estruturação. Isso muda a matriz da cidade.

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