'A classificação melhor favorece o governo e as empresas do País'

Para analista, elevação da nota em um ambiente de incerteza global tem significado positivo ainda maior

Entrevista com

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h05

Ainda que esperada, a melhora da nota do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor's é positiva, na medida em que deve contribuir para a redução dos custos de captação tanto para o governo quanto para as empresas. A avaliação é do economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros.

O que significa a elevação da nota do Brasil novamente em meio a uma crise?

A melhora do rating em um ambiente de incerteza global tem um significado adicional. É um ganho duplo. Em termos absolutos e em termos relativos, pois outros países muito possivelmente tendem a ter uma redução na nota. Principalmente os super endividados, tanto na Europa quanto fora dela.

A decisão já era esperada?

O mais importante é que nosso rating já estava em descompasso com a precificação de risco dada pelo mercado (ou seja, com os preços que os investidores vinham atribuindo aos títulos do governo brasileiro). Já estava claro que as agências estavam defasadas. Em geral, as agências seguem o mercado. Já era, portanto, de esperar que esse tipo de correção fosse feito em algum momento. A Standard & Poor's toma a frente, mas as demais agências devem ter a mesma leitura sobre os fundamentos do Brasil.

O que a elevação do rating significa na prática?

A melhor classificação favorece, ainda que não determine, uma redução de custos de captação do governo a médio prazo. No curto prazo, não há sensibilidade tão imediata. Isso tudo favorece também a leitura que agentes e investidores venham a fazer de empresas privadas brasileiras, na medida em que operam em um ambiente supostamente mais disciplinado. Essa leitura de que o Brasil vem se tornando mais disciplinado e de que há certo enraizamento do senso de responsabilidade acaba favorecendo as empresas que atuam no País. O Brasil está sendo percebido, a despeito de todas as dificuldades que os países têm pela frente, como mais 'arrumadinho', mais disciplinado. O fato de a nota brasileira se equiparar à do México tem um significado. Os mercados, por várias razões, tinham uma visão melhor do México do Brasil. É uma questão colocada havia muito tempo. Há um certo valor nisso.

O que é preciso para que a nota do Brasil continue avançando?

Em primeiro lugar, manter cadente a relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB), sobretudo no ambiente global em que o grande problema é o endividamento público. A manutenção da tendência de queda da relação dívida/PIB catapulta o Brasil para posições ainda melhores. É isso (rigor fiscal) que abre mais perspectivas de sustentabilidade de crescimento a médio e longo prazos. É preciso manter esse senso de responsabilidade. A despeito das controvérsias e debates em torno das opções de política econômica, não dá para deixar de reconhecer que há um enraizamento crescente do senso de responsabilidade no plano fiscal. Ainda há muita coisa para ser feita nessa área, sobretudo do ponto de vista da qualidade do gasto público, mas isso não é contraditório com o fato de que o senso de responsabilidade vem aumentando.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.