A competitividade e o equilíbrio essencial

Numa economia globalizada, olhando de dentro para fora das empresas, nota-se, no caso brasileiro, a carência de condições macro para que elas sejam competitivas. Condições, aliás, que independem de esforços das companhias. Voltando os olhos, agora, de fora para dentro delas, fica claro que a elas cabe, também, fazer a sua parte na contribuição por uma maior competitividade. Nem tudo nas empresas depende de fatores externos. A pergunta que vem a lume é: como fazer a empresa ser mais competitiva num cenário macro tão desfavorável? Um bom começo é buscar o equilíbrio essencial entre os fatores que fazem parte de seu processo produtivo.

Sérgio Amad,

07 de setembro de 2013 | 02h12

É necessário enxergar os elementos que compõem a organização não de forma dicotômica. Mas isso não é tarefa fácil. Antes mesmo da invenção do computador, e de seu clássico sistema 0-1, podemos encontrar no próprio ser humano uma tendência a interpretar a realidade a partir de esquemas binários. Fazem parte desses esquemas separações tradicionais como corpo e alma, mente e corpo e, trazendo a questão para o campo das organizações, entre máquinas e humanos, entre tecnologia e pessoas ou, então, entre capital financeiro e capital humano.

A própria área de gestão de pessoas, sobretudo aquela desenvolvida por teóricos e praticantes aliados ao movimento das relações humanas, contribuiu, com sua parte, para a construção dessas dicotomias no ambiente de trabalho. Nesse sentido, não é raro flagrarmos profissionais da área realçando a importância do capital humano em detrimento das outras dimensões organizacionais, como as técnicas, operacionais e financeiras. A mesma forma dicotômica de pensar, embora invertida, pode ser encontrada no modus operandi com que muitos administradores abordam a competitividade em suas companhias. Definindo essa propriedade em termos puramente técnicos e estratégicos, eles jogam sombra sobre os aspectos qualitativos a serem desenvolvidos em harmonia com os outros componentes da equação competitiva. Mas por que, afinal, os executivos não devem deixar de notar esses aspectos relativos ao capital humano?

Em primeiro lugar, por uma questão, por assim dizer, prática. Imagine uma empresa que, para garantir sua competitividade, tenha de atualizar seu repertório tecnológico. Considerando que ela tenha os recursos financeiros em quantidade suficiente, bastará adquirir um novo maquinário ou uma nova plataforma de TI para se igualar, neste aspecto hard, a seus concorrentes. Mas o que dizer se, em vez de o problema ser uma mera substituição de tecnologias, a empresa tiver de lidar com um concorrente que ostenta um quadro de profissionais altamente preparados e comprometidos? O leitor há de convir que, neste caso, não estamos diante de uma solução que possa ser consumada apenas com a compra de um novo maquinário.

Em segundo lugar, porque competitividade concerne, em grande medida, à capacidade de uma empresa se diferenciar com base no cultivo de recursos internos e em sua combinação sui generis. E um desses recursos é, obviamente, o humano. Assim, a empresa que tem o objetivo de ser competitiva precisa se sensibilizar para o desenvolvimento de estratégias de aproveitamento dos potenciais de seu quadro, o que pode ser feito de diversas formas. Incluem-se aqui, entre outros, os programas de desenvolvimento e capacitação profissional, os esquemas de participação nos resultados e o fomento à capacidade de inovação e criatividade.

Portanto, um importante desafio das empresas na atualidade é, além de sobreviver enfrentando o chamado custo Brasil, ajudar os executivos a manterem o equilíbrio necessário entre todos os ingredientes que resultam no comportamento competitivo. Do contrário, o risco é de vermos entrar em cena velhas dicotomias que, inevitavelmente, enfraquecem o resultado final que se espera das pessoas e das organizações, minando ainda mais o potencial competitivo que a empresa poderia apresentar.

* É PROFESSOR DE RECURSOS HUMANOS E RELAÇÕES TRABALHISTAS DA FGV-SP

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