A conexão Lansing-Pequim

Defasagem crescente entre lucros e salários expõe o esvaziamento dos sindicatos nos EUA e sua ausência na China

HAROLD, MEVERSON, BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 02h06

Artigo

A China tem um problema: a crescente desigualdade. A brecha entre lucros e salários é cada vez maior. Apesar de alguns elementos do governo terem desejado melhorar a renda dos trabalhadores, foram impedidos por grandes empresas e bancos que "não querem dar mais lucro para o país e deixar que o governo o distribua", disse Qi Jingmei, membro de um grupo de especialistas do governo, ao The Wall Street Journal.

Naturalmente, se a China autorizasse a criação de sindicatos, os salários aumentariam. Mas, por razões políticas (sindicatos independentes corroeriam a autoridade do Partido Comunista), eles estão fora de questão. Por outro lado, os Estados Unidos também têm um problema de defasagem, cada vez maior, entre lucros e salários. A estagnação dos salários hoje é um fato aceito por todo o espectro político: analistas conservadores como Michael Gerson e David Brooks reconhecem que a renda do trabalhador está imóvel.

O que os conservadores não admitem, e muitos analistas liberais não avaliam, é como o colapso do contrato coletivo incapacitou os trabalhadores americanos de negociar aumentos de salário por conta própria. Sim, a globalização e a mecanização da mão de obra tiveram enorme impacto sobre a subsistência de milhões de trabalhadores americanos, mas isso não é tudo.

Cerca de 100 milhões dos 143 milhões de trabalhadores do país têm empregos que não podem ser transferidos para fora, que não estão concorrendo com os metalúrgicos de São Paulo ou os montadores de iPods em Shenzen. Os vendedores de lojas e livrarias, garçons, carpinteiros, todos utilizam tecnologia no trabalho, mas não a ponto de se tornarem desnecessários.

Mas, embora seu trabalho não possa ser dispensado, nenhum deles consegue negociar aumentos. Hoje, menos de 7% dos empregados no setor privado são sindicalizados. Essa porcentagem pode diminuir um pouco mais com as novas leis de "direito ao trabalho" em Michigan - termo propagandista para um estatuto legal que permite que os trabalhadores se beneficiem de contratos formalizados pelos sindicatos sem precisar pagar uma contribuição sindical.

Os defensores das leis trabalhistas alegam que elas melhoram a economia de um Estado com a criação de empregos. Mas um amplo estudo feito pelo economista Lonnie Stevans, da Hofstra University, concluiu que os Estados que aprovaram esse tipo de lei não reportaram nenhum aumento no número de startups ou na taxa de emprego. Os salários e rendas pessoais nesses Estados são menores do que naqueles em que a lei não foi implementada, concluiu Stevans, embora a renda dos patrões tenha crescido. Em resumo, as leis trabalhistas apenas redistribuem a renda dos trabalhadores aos donos das empresas.

Por que então essas leis vêm sendo aprovadas? A defasagem entre o rendimento de capital e a renda do trabalhador jamais foi tão ampla desde antes do New Deal; por que ampliá-la ainda mais? A resposta, tanto em Lansing, capital do Estado do Michigan, como em Pequim, é política. Os republicanos que assumiram o Estado do Michigan em 2010 acham que os soldados rasos dos Democratas vêm desproporcionalmente da classe trabalhadora. Os esforços para reduzir a influência dessa classe trabalhadora ajuda mais os republicanos politicamente do que qualquer empresa ou governos locais do Estado de Michigan. (A legislação, que o governador republicano Rick Snyder ratificou na terça-feira estabelece requisitos para o direito ao trabalho também no setor público.)

Aqueles que duvidam que a intenção da legislação votada em Michigan é mais política que econômica devem analisar dois tipos de sindicatos que estão fora do alcance das novas regras: o da polícia e o dos bombeiros. Os policiais e bombeiros geralmente se aposentam mais cedo que outros funcionários públicos e com uma aposentadoria generosa. Mas em Michigan os sindicatos dos bombeiros e da polícia com frequência apoiam os republicanos. Reduzir seus recursos financeiros e poder político sujeitando-os à lei trabalhista só prejudicaria as perspectivas eleitorais dos republicanos.

Com a ratificação da lei por Snyder, Michigan se torna o segundo Estado na outrora fortemente sindicalizada região industrial do meio-oeste a adotar uma tal legislação; neste momento, essa nova legislação se restringe a Estados do sul, das planícies e do west mountain. O sindicato dos metalúrgicos UAW foi outrora o colosso da política de Michigan, mas o número de membros caiu para 381 mil - cerca de um quarto do tamanho há 35 anos. Foi vítima da globalização e dos obstáculos culturais e legais enfrentados para conseguir novas adesões.

Os republicanos de Michigan viram uma possibilidade de debilitar o UAW e o poder da classe trabalhadora em tempo de eleição. Com isso, o número de trabalhadores que conseguem negociar aumentos caiu ainda mais. É interessante o fato de os conservadores reconhecerem que os salários estão estagnados. Mas eles não conseguem elevar seu salário se não puderem negociar coletivamente, e tudo o que se tem escrito sobre o aumento da desigualdade é retórica sem sentido, salvo se insistirmos - tanto em Lansing como em Pequim - no direito do trabalhador de criar sindicatos poderosos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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