A corrida das múltis na área de saúde

A Varian, uma das pioneiras do Vale do Silício, entra em um mercado que também atrai investimentos de Siemens e Toshiba

FERNANDO SCHELLER, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2012 | 03h08

As multinacionais estão apostando uma corrida para garantir espaço no setor de equipamentos para a área médica no País. Enquanto a expansão nos países desenvolvidos é próxima de zero, o segmento cresceu 17% no Brasil em 2011, reflexo da alta da renda e do aumento de brasileiros com planos de saúde. No segundo semestre, a japonesa Toshiba e a alemã Siemens devem inaugurar novas fábricas no País. E a americana Varian Medical Systems, uma das pioneiras do polo tecnológico do Vale do Silício, na Califórnia, afirma que seguirá o mesmo caminho.

A diferença entre a Varian e as concorrentes é que, enquanto as outras multinacionais se dedicam ao setor de imagem - ultrassom e raio X, por exemplo -, ela deverá fabricar aparelhos de alta complexidade para tratamento de vários tipos de câncer. Além da planta industrial, a empresa pretende criar um centro de treinamento para médicos, montar uma cadeia de fornecedores de peças, desenvolver softwares e abrir um centro de distribuição no País. O investimento da empreitada ainda não foi definido, mas a expectativa da empresa é que o número de empregos gerados pela Varian no País pelo menos dobre, passando dos atuais 60 para 120.

Para criar equipamentos capazes de tratar vários tipos de câncer e de fazer a dosagem de radiação de acordo com a agressividade do tumor, a Varian Medical Systems investe anualmente cerca de US$ 170 milhões em pesquisa e desenvolvimento. A opção pelo investimento em países emergentes reflete tanto o maior acesso da população a tratamentos quanto o aumento da impressionante incidência de câncer em algumas nações. "Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), haverá mais pacientes de câncer de pulmão na China em 2020 do que no resto do mundo", diz Kolleen T. Kennedy, vice-presidente sênior da Varian. "Por lá, o número de fumantes só cresce."

Desenvolvimento. Os novos investimentos das multinacionais vão ajudar a ampliar a complexidade da indústria de saúde no Brasil. Apesar do rápido crescimento - e de o faturamento ter ficado próximo de R$ 10 bilhões no ano passado -, a maior parte das indústrias ainda se dedica a produtos de instrumentação cirúrgica e aparelhos para procedimentos simples. Por isso, apurou o Estado, a fábrica de equipamentos médicos que a Toshiba pretende inaugurar até o fim do ano, em Campinas (SP), deverá se concentrar em aparelhos de diagnóstico por imagem do estilo "commodity". Os produtos de mais tecnologia continuarão a ser importados.

Essa carência de equipamentos básicos reflete o sucateamento da rede brasileira de hospitais, diz Paulo Henrique Fraccaro, vice-presidente da Abimo, associação que congrega fabricantes de artigos médicos, odontológicos e laboratoriais. "No Brasil, ainda vale a pena investir em um maior número de equipamentos simples, que atenderão mais gente, do que em poucos aparelhos de altíssima tecnologia", diz. "A nossa indústria ainda funciona dentro dessa lógica de custo-benefício. Por isso, os aparelhos ainda são pouco sofisticados."

No entanto, Fraccaro afirma que indiscutivelmente há uma demanda reprimida por equipamentos de diagnóstico de câncer no País. "No Brasil, existem atualmente cerca de 5 mil mamógrafos em operação. A metade deles tem mais de dez anos de uso", exemplifica.

Transição. A Siemens desenvolveu o portfólio de sua nova fábrica no País equilibrando a oferta de aparelhos básicos com equipamentos de alta tecnologia. A multinacional alemã vai investir R$ 50 milhões em uma unidade que fabricará tanto produtos para análise laboratorial quanto equipamentos de diagnóstico por imagem, como raio X, ressonância magnética e tomografia de última geração. A unidade será inaugurada no segundo semestre, em Joinville (SC), onde a empresa já tem um centro de distribuição para o segmento médico.

Segundo Armando Lopes, diretor da área de cuidados com a saúde da Siemens, a demanda no Brasil em produtos de ponta também está em alta, especialmente depois do crescimento dos planos de saúde, que hoje contabilizam 45 milhões de clientes. "É preciso trabalhar a oferta de acordo com a necessidade do cliente. No Brasil, isso significa oferecer diferentes tipos de equipamentos", explica.

Outro ponto importante no segmento, segundo o executivo da Siemens, é o pós-venda. Por isso, a empresa montou, ao longo dos últimos dez anos, uma equipe capaz de atender necessidades de hospitais de todas as regiões do Brasil. "Com a autorização do cliente, conseguimos monitorar remotamente sinais de problemas nas máquinas a partir da nossa central", explica Lopes. "Assim, evitamos prejuízos com aparelhos parados."

Uma das vantagens da atuação na área da saúde, segundo Kolleen, da Varian, é que o aumento da eficiência tecnológica e de serviço se reflete não só no bolso do dono do hospital, mas também no bem-estar do paciente: "Uma máquina que faz radioterapia mais rápido garante mais negócios ao cliente, mas também ajuda bastante no conforto de quem está doente."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.