A corrosão da classe média nos EUA

Enquanto os super-ricos se parabenizam por doar bilhões à caridade, o resto do país nunca esteve numa situação tão ruim

Thomas Schulz, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Ventura é uma pequena cidade da costa do Pacífico, a cerca de uma hora de carro de Los Angeles. Casas luxuosas com vista para o oceano foram construídas nas colinas e as praias são muito frequentadas pelos surfistas.

Ventura é uma Califórnia de conto de fadas. "Um lugar rico", diz o capitão William Finley. "Mas 20% dos que vivem na cidade correm em risco de ficar sem teto". Finley dirige uma filial local do Exército da Salvação.

No verão passado, a cidade implementou um programa-piloto, administrado por Finley, permitindo às pessoas dormir nos seus carros dentro dos limites da cidade. O que normalmente é ilegal, não só em Ventura como no resto do país, onde as autoridades locais e os moradores se inquietam quando observam vans repletas de trabalhadores migrantes mexicanos estacionadas nas ruas residenciais.

Mas, no início do ano passado, os moradores de Ventura perceberam que os carros estacionados na frente das suas casas à noite não eram aquelas latas velhas, mas carros em ótimas condições. E as pessoas que dormiam dentro deles não eram colhedores de frutas ou sem-teto, mas seus antigos vizinhos.

William Finley também observou outras mudanças. De repente, um número duas vezes maior de pessoas estava recorrendo aos programas de refeição gratuita oferecida pelo seu serviço social, sendo que algumas chegavam ali conduzindo um BMW - aparentemente com dificuldade para se livrar de um carro caro que os lembrava dos seus dias melhores.

Novos pobres. Finley chama essas pessoas de "novos pobres". "É uma categoria diferente de pessoas que estamos vendo. São pessoas que jamais pensaram que um dia se tornariam sem-teto", diz ele. São pessoas que já tiveram uma boa renda - muitas até tinham muito dinheiro - até há pouco tempo.

"Hoje, a imagem de uma pessoa sem recursos é diferente. Quando eu era pequeno, uma pessoa pobre - eu venho de uma família muito pobre - tinha um carro velho, com uns dez anos, provavelmente com alguns amassados. Era um carro para a família, e ninguém ia procurar comida em instituições de caridade. No passado, as pessoas procuravam sair sozinhas da pobreza e subir na vida", disse ele.

O estilo de vida americano vai na direção oposta. "Hoje a imagem é esta: as pessoas querem ter o modelo mais novo de carro, que pode custar US$ 40 mil, US$ 50 mil, e depois não sabem o que fazer, e acabam recorrendo às instituições de caridade em busca de uma refeição. E para muitas, é difícil engolir o orgulho."

Por um período, os EUA pareciam ter saído relativamente ilesos da pior crise já observada em décadas com mais energia e vigor - como se verificou em crises anteriores.

O governo anunciou novos dados de crescimento no fim do ano passado, muito mais cedo do que o esperado. Os bancos, moribundos até recentemente, voltaram a lucrar bilhões. Empresas reportaram um forte crescimento e a bolsa quase chegou aos níveis anteriores à crise. Até o número de bilionários aumentou: 17% em 2009.

Há duas semanas, Bill Gates, fundador da Microsoft, e mais 40 bilionários, prometeram doar pelo menos a metade da sua fortuna para instituições filantrópicas, ainda em vida ou após sua morte. Serão os EUA um país tão abençoado com a riqueza que alguém pode se permitir doar bilhões de dólares, como é o caso?

A decisão de Gates também pode ser interpretada como uma campanha de relações públicas, num país onde os super-ricos sentem que, enquanto lucram com a crise, como é de se esperar, o número de pessoas afetadas por ela cresceu enormemente. E percebem que aumenta cada vez mais o ressentimento na sociedade americana contra aqueles que estão no topo.

Para as pessoas de baixa renda, a recuperação já parece ter se desintegrado. Especialistas temem que a economia possa continuar frágil por muitos anos. E, apesar de muitos programas de assistência do governo, a pouca esperança que deveriam produzir ainda não foi sentida pela população de um modo geral. Pelo contrário, para muita gente a tendência é sempre de queda.

Segundo uma recente pesquisa, para 70% dos americanos a recessão continua a pleno vapor. E desta vez não são apenas os pobres os mais atingidos, como costuma ocorrer nesses períodos. A crise também está atingindo pessoas diplomadas que até agora tinham um bom nível de vida. Indivíduos considerados de classe média e que hoje sentem-se mais ameaçados do que em qualquer momento na história do país. Quatro em cada dez americanos que fazem parte dessa classe acham que não conseguirão manter sua condição social.

O desemprego persiste. Numa reportagem recente intitulada "Adeus, classe média", o New York Post apresentou a seus leitores "25 dados estatísticos provando que a classe média está sendo sistematicamente aniquilada nos EUA". Na semana passada a colunista online Arianna Huffington fez um alerta quase apocalíptico, de que "Os EUA correm o risco de se tornar um país do Terceiro Mundo".

De fato, os EUA, na esteira da crise, estão ameaçados por uma Idade do Gelo social mais severa, jamais observada desde a Grande Depressão.

O país vive o problema do desemprego persistente pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. O número de pessoas sem emprego há muito tempo é três vezes maior do que o observado em qualquer outra crise, e ele ainda está crescendo.

Mais de um ano após o término oficial da recessão, a taxa de desemprego continua consistentemente acima dos 9,5%. Mas esses são dados oficiais. Quando ajustados para incluir aqueles trabalhadores que já desistiram de procurar emprego ou que sobrevivem com algumas centenas de dólares que ganham fazendo algum trabalho esporádico, ou usando suas poucas economias, a taxa de desemprego real sobe para mais de 17%.

No seu relatório anual, o Departamento de Agricultura observou que a "insegurança alimentar" vem aumentando e que, no ano passado, 50 milhões americanos não conseguiam comprar a quantidade de alimento suficiente para se manter.

Um em cada quatro americanos adultos e uma a cada quatro crianças sobrevivem às custas de vales-alimentação do governo. São dados inacreditáveis para uma nação considerada a mais rica do mundo.

Mais inquietante ainda é o fato de que os EUA, país sempre caracterizado pela fé inquebrantável no sonho americano e a convicção de que qualquer um, mesmo aqueles que estão no fundo do poço, podem subir na vida, começam a perder o seu otimismo. De acordo com dados recentes, uma minoria importante de cidadãos acredita que seus filhos estarão em pior situação do que eles estão hoje.

Foi só nos últimos meses, quando a economia cresceu, mas o emprego não voltou, os lucros aumentaram, mas os índices de pobreza sobem a cada semana, que o país parece ter reconhecido que está lutando com uma crise estrutural profundamente arraigada que já vinha se formando há muitos anos. Como escreveu o Washington Post, a crise financeira foi a guinada para o pior. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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