A crise chegou ao emprego

O governo se disse surpreso com o fato de o Brasil ter fechado mais de 30 mil postos de trabalho só no mês de outubro. A surpresa é injustificável, pois a geração de empregos vem perdendo força há mais de um ano, segundo os dados coletados pelo próprio governo no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). A indústria de transformação e a construção civil vêm apresentando desempenho fraquíssimo.

José Pastore, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2014 | 02h04

Por isso, para a maioria dos brasileiros não deve ter havido surpresa. A julgar pelo comportamento dos consumidores, nota-se uma profunda redução no nível de confiança no futuro da nossa economia. Apesar de a taxa de desemprego se manter baixa, as pessoas sentem que as oportunidades de emprego estão escasseando. Percebem que a maioria dos empregos gerados nos últimos tempos se concentra nas faixas de salários mais baixos. De fato, dois terços dos empregos gerados em 2014 pagam, em média, 1,5 salário mínimo. Acima disso, os empregos estão rareando.

Alguns argumentam que o salário mínimo em si aumentou bastante, o que é verdade. Mas, quando se consideram o avanço da inflação e a escassez de bons empregos, há razões de sobra para os consumidores agirem com cautela - sem falar no peso do endividamento, que atinge a maioria das famílias. Para os consumidores, o momento é de grande incerteza. O próprio varejo tem acusado importantes mudanças no consumo até mesmo em gêneros de primeira necessidade.

A anemia na criação de postos de trabalho decorre do estado de mal-estar que atinge não apenas os consumidores, mas, sobretudo, os investidores. Na indústria, o quadro é dramático. Em quase todos os ramos, as empresas perdem competitividade em razão do alto custo da produção e da comercialização no Brasil.

Com um quadro desse tipo, não é surpresa ver o emprego crescer lentamente ou até diminuir, como ocorreu no mês passado. Ao longo do ano, só as montadoras demitiram mil empregados por mês (em média). Como essa atividade tem uma cadeia produtiva longa e complexa, as demissões vão se multiplicando nas empresas de autopeças, equipamentos, serviços especializados, chegando até a ponta onde está a siderurgia.

Estamos numa encruzilhada. O País perdeu a força para crescer e não dá sinais de recuperação. Os problemas foram se avolumando e agora bateu à porta do emprego. Por sorte ou por força da demografia, atravessamos essa crise com baixas taxas de desemprego. Isso decorre da redução dos que procuram emprego, em razão da diminuição da natalidade, e também da ação dos atenuantes do desemprego, como é o caso dos programas sociais (Bolsa Família, financiamento da matrícula, melhoria do valor da aposentadoria, etc.). Isso tudo gerou uma redução da taxa de atividade das pessoas no mercado de trabalho e menos pressão por emprego.

Muitos dos que leem este artigo devem se sentir desconfortáveis porque enfrentam agora mesmo grandes dificuldades para conseguir empregos que paguem o condizente com seu nível de qualificação e experiência profissional. Esse quadro é verdadeiro. Cresce a cada dia o número de "nem-nem maduros", homens com mais de 50 anos que nem trabalham nem se aposentam. Para eles, os bons empregos sumiram.

O mais grave, entretanto, é que esse quadro pode piorar. Sim, porque, a continuar o corte de empregos verificado em outubro - lembrando que dezembro é mês de muitas dispensas -, chegaremos a um ponto em que os empregos oferecidos, mesmo os de menor remuneração, não serão suficientes para atender à procura - ainda que reduzida e atenuada. Não me surpreenderia se, em meados de 2015, o quadro traçado vier a redundar numa preocupante elevação da taxa de desemprego, com redução da massa salarial, do consumo e, ainda mais, dos investimentos.

*José Pastore é professor da Universidade de São Paulo, presidente do conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomercio-SP e membro da Academia Paulista de Letras 

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