A crise como esfinge

No final deste semestre a crise financeira internacional completará dois anos, se considerarmos que ela se iniciou em junho de 2007, com os sinais de dificuldades em dois fundos do ex-banco Bear Stearns. Seguiram-se ocorrências similares ao longo de 2007, com fundos ligados a grandes bancos internacionais - nenhuma suficientemente forte para dar uma indicação da gravidade do que estava por vir. Durante 2008, as perdas dos maiores bancos americanos começaram a ser conhecidas e ocorreu uma sucessão de eventos desfavoráveis: o socorro ao Bear Stearns, a virtual falência do Northern Rock, na Inglaterra, e o anúncio de prejuízos de bancos na zona do euro, indicando que a crise já atravessara as fronteiras americanas. Neste ambiente de incerteza e aversão a risco, a liquidação do Lehman Brothers foi apenas o sinal detonador do ciclo de quase-pânico que desestabilizou os mercados financeiros mundiais desde então.A seguir, a crise financeira se propagou de maneira rápida e devastadora para a economia real e para os fluxos de comércio: as projeções recentes do FMI indicam, para 2009, uma queda de 2,8% nas transações comerciais e um crescimento de apenas 0,9% para a produção mundial. Estima-se para os países industrializados uma redução de 2% no PIB, a primeira contração anual desde o pós-guerra. Esse minguado desempenho da economia global se refletirá novamente no sistema financeiro, com piora da inadimplência e contração de crédito. Isso, por sua vez, poderá causar um novo ciclo de redução na atividade econômica.Existem limites à crescente entropia observada nos sistemas financeiro e produtivo decorrentes da crise atual? E por que esta parece tão insensível às inúmeras iniciativas de restabelecimento da estabilidade do sistema financeiro? O conhecimento de crises anteriores parece não oferecer respostas fáceis e definitivas às duas questões precedentes. No terreno das hipóteses, a formulação é livre, mas elas devem sobreviver aos testes críticos de robustez para serem aceitas como possíveis explicações para a crise. Como na mitologia grega, ou entendemos a gestação e a propagação da crise ou uma brutal recessão pode devorar os ganhos econômicos dos últimos anos.Uma hipótese se relaciona com a combinação de dois fatores: a origem da crise e sua rápida contaminação para alcançar o coração do sistema financeiro, que é o conjunto dos chamados money-center banks, os bancos que têm um papel relevante no mercado monetário.Uma crise originada em créditos imobiliários já traz implícita uma duração mais longa do que episódios similares, decorrentes de mudanças de preços de outros ativos (ações, taxas de câmbio, taxas de juros, etc.). Os preços dos imóveis se ajustam com mais lentidão às mudanças nas condições de mercado do que outros ativos financeiros. Isso significa que a reativação da economia americana só ocorrerá quando iniciar a recuperação dos preços dos imóveis naquele país. Outra implicação tem que ver com o necessário direcionamento de recursos públicos já aprovados para mitigar a dificuldade de pagamentos dos atuais devedores inadimplentes e evitar o aparecimento de novos devedores.Os empréstimos imobiliários de alto risco acabaram pousando nos balanços dos grandes bancos na forma de créditos convencionais ou empacotados sob a forma de "securities". Nas duas situações, dependendo da alavancagem da instituição financeira, uma mudança nos preços dos ativos pode comprometer a solvência do banco, se tais ativos tiverem de ser marcados a mercado. Um simples exercício ilustra o argumento: um grande banco, com uma alavancagem de 30 vezes o seu patrimônio e com uma participação de 30% de ativos/créditos de baixa qualidade na sua carteira de créditos, pode ter seu patrimônio dilapidado por uma redução de 12% no preço dos ativos "tóxicos". Sugere-se, portanto, que estamos diante de uma situação inusitada de insolvência de parte significativa do sistema bancário americano. A política monetária dos bancos centrais nada pode fazer para cuidar desse problema. Soluções heterodoxas, do tipo nacionalização de bancos, devem fazer parte do cardápio, pois tais bancos se ressentem de dois recursos escassos: capital e credibilidade. Neste contexto, apenas o Estado pode atuar como emprestador/garantidor/segurador de última instância, para o bem ou para o mal. *Alkimar R. Moura é professor de Economia da FGV-SPO colunista Celso Ming está em férias.

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