Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

A crise de 2008 na visão de Bernanke

Em livro, ex-presidente do Fed se apresenta como alguém que fez o necessário para salvar a economia do desastre

The Economist

13 de outubro de 2015 | 02h03

Ben Bernanke é conhecido pela cabeça fria e personalidade pensativa. Perto do final de seu período como presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), de 2006 a 2014, o presidente Obama o descreveu como a "epítome da calma". Não surpreende, portanto, que a narrativa feita por Bernanke do seu período no cargo seja um relato lúcido e analítico, dispensando parte do lado dramático visto em relatos anteriores da crise financeira. Em vez disso, o livro que está lançando agora, The Courage to Act, proporciona uma robusta defesa da resposta do Fed à crise. Bernanke claramente enxerga a si mesmo como alguém que fez o necessário para salvar a economia do desastre, diante de uma saraivada de críticas injustificadas. Em sua essência, o livro é uma resposta aos seus críticos.

Quando os mercados começaram a apresentar problemas no final de 2007, Bernanke, que estudou a Depressão, sabia a importância de manter o dinheiro em fluxo. As falências de bancos nos anos 1930 trouxeram o caos para a economia real. No mínimo, o Fed teria de seguir o lema de Walter Bagehot, editor da The Economist do século 19: emprestar livremente a instituições solventes a juros punitivos contra boas garantias.

Este foi o princípio por trás da resposta inicial de Bernanke à crise, que incluiu uma sopa de letrinhas de programas de crédito para canalizar fundos aos bancos. Bernanke se orgulha dessas intervenções, com razão, pois ajudaram a moderar a crise e resultaram finalmente em lucro para o contribuinte. Mas, conforme a situação piorou, Bernanke teve de ser mais ousado que Bagehot, especialmente ao usar poderes emergenciais para apoiar dois resgates realizados durante o final de semana: os de Bear Sterns, salvo pelo J. P. Morgan, e da seguradora AIG, salva pelo contribuinte.

Os dramáticos resgates foram politicamente tóxicos, especialmente quando a AIG anunciou posteriormente que pagaria bonificações aos seus funcionários. Bernanke diz ter compartilhado das emoções do público, e teria ficado "possesso" diante da imprudência dos executivos da AIG. Mas ele diz que o propósito do Fed é adotar medidas que são necessárias, ainda que impopulares, e um resgate era do interesse do americano comum.

Depois da crise, Bernanke supervisionou uma mudança paradigmática na política monetária. Com os juros presos perto do zero, o Fed embarcou em três rodadas de afrouxamento quantitativo (QE), comprando valores mobiliários financeiros com dinheiro recém-criado. Mas, em se tratando de política monetária, o verdadeiro tema do livro é a comunicação. Bernanke tornou o Fed mais transparente. Em 2012, ele satisfez uma antiga ambição de definir uma meta explícita para a inflação; introduziu também a prática de organizar coletivas de imprensa do Fed periodicamente. Foi duas vezes ao programa de TV 60 Minutes para explicar as políticas do Fed. "Na política monetária, 98% são conversa e 2% são ação", diz. Conforme o Fed tentava acelerar a economia após a crise, a instituição passou a aplicar a "orientação futura" - na prática, um indício de que o Fed pretendia manter a política mais relaxada do que os mercados teriam esperado.

Mas o leitor segue se perguntando se o Fed de Bernanke - que agiu de maneira tão decisiva em defesa dos bancos - estava atrás da curva na política monetária, apesar da novidade do QE. Retrospectivamente, a decisão de deixar a taxa básica de juros em 2% em setembro de 2008, imediatamente após o colapso do Lehman Brothers, foi "certamente um erro", escreve ele. Bernanke pareceu ter mais facilidade convencendo sua comissão quanto à necessidade dos resgates para evitar a catástrofe do que quanto à necessidade de uma política relaxada depois que o desastre ocorreu.

Mas a maior parte das críticas recebidas por Bernanke durante seu mandato vieram de falcões que odiaram o QE. Houve momentos em que isso se tornou pessoal: em 2012, Rick Perry, então candidato à presidência, disse que os texanos tratariam "bastante mal" o presidente do Fed como resultado de ele ter imprimido dinheiro (curiosamente, ele lembra que foi ao Texas e acabou sendo bem-recebido).

O livro desconstrói de forma convincente os argumentos dos falcões. O QE não provocou uma inflação descontrolada e os EUA ultrapassaram a Europa, que optou por uma política mais austera. E quanto às alegações segundo as quais a política relaxada teria prejudicado os poupadores? O baixo retorno é o resultado inevitável de uma economia enfraquecida; juros altos só agravam o problema.

Um aspecto interessante do livro é o crescente distanciamento entre Bernanke e os republicanos. Ele lamenta a voracidade destes, sua resistência aos resgates de bancos e ocasional defesa de sistemas monetários desacreditados, como o padrão ouro. Sua obsessão com os cortes de gastos ao fim do mandato dele quase prejudicaram a economia real, diz o autor. Ele queria que o Congresso se concentrasse nos desafios fiscais de longo prazo, ao mesmo tempo dando apoio à economia no curto prazo.

A maior revelação do livro é que, ao depor diante do congresso imediatamente após o colapso do Lehman, Bernanke ocultou sua crença de que o governo jamais poderia ter salvo o banco. Em meio à crise, ele e Henry Paulson (ex-secretário do Tesouro americano) não quiseram reconhecer os limites de seus poderes, por medo de assustar os mercados. Ele diz que isso deixou a impressão incorreta de que deixar o Lehman quebrar teria sido uma escolha.

Bernanke trata com graça seus críticos, mas se mostra claramente ansioso para dar sua versão dos fatos. O resultado é um livro que atrai mais do que entretém. Mas essa tendência é desejável num presidente de Banco Central - principalmente durante uma crise.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR AUGUSTO CALIL, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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