A crise de identidade econômica da China

Diferentemente do Ocidente, onde o ex-presidente George H. W. Bush uma vez zombou dessa “coisa de visão”, a China leva muito a sério a estratégia econômica. Isso ficou claro no recente Fórum de Desenvolvimento da China (FDC) em Pequim, um encontro importante realizado anualmente desde 2000, imediatamente após a conclusão do Congresso Nacional do Povo anual.

Stephen S. Roach*, O Estado de S.Paulo

31 Março 2016 | 08h05

Originalmente concebido pelo ex-primeiro-ministro Zhu Rongji – um dos modernos reformadores chineses voltados para a estratégia –, o FDC rapidamente se tornou uma plataforma de alto nível para ligação entre políticos e uma junção internacional de acadêmicos, funcionários estrangeiros e líderes empresariais. É, em resumo, um teste de tensão intelectual – forçando líderes chineses a defender estratégias e políticas recém-formuladas ante uma rigorosa e experiente audiência de especialistas de fora. Nem sempre é fácil filtrar uma mensagem de um evento desses, especialmente tendo o FDC, antes uma pequena reunião íntima, se tornado uma extravagância do tipo Davos, com cerca de 50 sessões divididas em três dias. Mas, tendo comparecido a 16 dos 17 encontros (perdi o primeiro), minha sensação é de que o FDC 2016 foi especialmente rico em suas estratégicas implicações para os assustadores desafios econômicos da China.

E, em minha opinião, o touro na loja foi o núcleo do modelo econômico da China – um modelo voltado para a produção versus um modelo voltado para o consumidor. O milagre econômico chinês – 10% de crescimento anual do PIB de 1980 a 2010 – foi todo baseado na habilidade do país como produtor final. Conduzida pela manufatura e construção, a China experimentou um ímpeto poderoso e único. Em 1980, as exportações e investimento responderam por 41% do PIB chinês; em 2010, 75%. A parcela da exportação foi a que mais cresceu – perto de seis vezes, de 6% em 1980 para um pico pré-crise de 35% em 2007 – quando novos meios e infraestrutura, mão de obra barata e ascensão à Organização Mundial do Comércio fizeram da China o maior beneficiário mundial da crescente globalização e dos novos fluxos de comércio. Entretanto, o modelo produtor não era a fórmula definitiva para atender às aspirações da China de se tornar uma sociedade moderadamente próspera por volta de 2020. Esse conclusão foi antecipada pela hoje famosa crítica do ex-primeiro-ministro Wen Jiabao que, em 2007, diagnosticou corretamente o modelo produtor como “não equilibrado, instável, sem coordenação e insustentável”. Essas, claro, eram palavras em código para poupança de excedentes, investimento excessivo, demanda de recursos em aberto, degradação ambiental e crescente desigualdade de renda.

Um novo modelo era necessário não apenas para fugir desses perigos, mas para evitar a temida “armadilha da renda média”, que envolve as economias de desenvolvimento rápido quando chegam aos limites de renda dos quais a China estava rapidamente se aproximando. A crítica de Wen desencadeou um intenso debate interno que resultou numa estratégica decisão-chave para reequilibrar a economia chinesa pela mudança para um modelo baseado no consumidor, como esboçado pelo 12º Plano Quinquenal 2011-2015. Essa nova abordagem tinha três grandes componentes: destaque em serviços, para estimular a criação de empregos; acelerar a urbanização para elevar os salários reais; e uma rede social mais robusta para prover as famílias chinesas com a segurança necessária para canalizar suas novas rendas de uma poupança alimentada pela precaução amedrontada para um consumo sem restrições.

Os resultados do agora completo 12º Plano Quinquenal são impressionantes – especialmente à luz do formidável desafio que mudanças estruturais representam para qualquer economia. Mas onde o estratégico foco da China se mostrou mais efetivo foi em proporcionar uma estrutura para guiar a economia do Ponto A ao ponto B. A jornada ainda está longe da conclusão. Enquanto os objetivos de serviços e urbanização foram amplamente alcançados, não se chegou a muitos pontos da construção de uma mais robusta (isto é, plenamente financiada) rede de segurança social. Como resultado, o consumo pessoal avançou de 35% do PIB em 2010 para apenas cerca de 37% em 2015. Não obstante o inconcluso negócio do reequilíbrio voltado para o consumidor, a China agora parece estar adotando uma nova mudança em sua estratégia econômica de fundo – conduzida por uma ampla variedade de “iniciativas de redução de taxas” que vão de redução de capacidade e desalavancagem a inovação e produtividade.

Essa ênfase foi formalizada pelo recente “Relatório de Trabalho” do primeiro-ministro Li Keqiang, que destacou nova estratégia do recém-decretado 13º Plano Quinquenal (cobrindo o período de 2016 a 2020). Ao identificar as grandes “oito tarefas” para 2016, Li pôs as reformas de redução de taxas como número 2 – atrás apenas do foco do governo na estabilidade econômica para conter a desaceleração do crescimento. Em contraste, a ênfase no crescimento da demanda interna – há muito o foco da estratégia de reequilíbrio com ênfase no consumidor – foi rebaixada para terceiro lugar na chamada agenda de trabalho.

Na China, onde debates internos são cuidadosamente roteirizados, nada acontece por acaso. Na tônica do discurso no FDC deste ano, o vice-primeiro-ministro e membro do Comitê Permanente do Politburo Zhang Gaoli enfatizou a necessidade de abordar as iniciativas de redução de taxas. Em contraste, só houve menções passageiras ao reequilíbrio voltado para o consumidor. Talvez eu seja culpado de detalhar demais. Acima de tudo, qualquer economia precisa focar tanto no consumo quanto na demanda na equação do crescimento.

Mas essa mudança de ênfase – no 13º Plano Quinquenal e no debate e mensagem do Fórum de Desenvolvimento da China deste ano – parece haver um importante sinal. Preocupa-me de que seja de uma prematura volta do modelo voltado para o consumidor para a zona de conforto do modelo produtor mais palatável para a engenharia industrial do planejamento central. Estratégia é a grande força da China, dando credibilidade a seu compromisso com as mudanças estruturais. Mas ainda falta muito para dar vida ao consumidor chinês. Sim, o desafio é duro. Mas tirar a ênfase desse compromisso com a estratégia pode levar ao questionamento dessa mudança crucial hoje requerida pela identidade econômica profunda da China. / Tradução de Roberto Muniz

* Professor da Universidade de Yale e ex-presidente do Morgan Stanley Asia, é autor de 'Unbalanced: The Codependency of America and China'

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.