A crise do euro

Não é absurdo imaginar que, cedo ou tarde, a opção de abandonar a moeda única seja de fato considerada

José Júlio Senna, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

O euro nasceu como um grande projeto político. O que por acaso faltasse - no campo econômico - para lhe dar sustentação, teria de vir com o tempo. Na época, os especialistas já sabiam que o projeto não correspondia à ideia de "área ótima de moeda". Isso talvez fosse verdade para um grupo menor, jamais para a totalidade dos membros originais do euro. Há quem pense que uma união monetária tende a funcionar bem se os países têm estruturas diferentes, ou "complementares". Mas é um erro. Em economias muito distintas, os choques que atingem umas habitualmente não afetam outras, exigindo grande esforço de ajustamento e dificultando o manejo da política monetária.

E foi exatamente isto o que aconteceu. Nos primeiros anos do euro, houve euforia em alguns países. A Irlanda, por exemplo, que se ajustara economicamente a partir de meados dos anos 90, tornando-se um verdadeiro "tigre", ganhou impulso extra. Em economias mais ao sul, cuidou-se apenas de aproveitar a onda da integração monetária, sem se pensar em reformas. De início rejeitada, a Grécia foi aceita em 2001.

O contraste era nítido. Na Alemanha, a reunificação ainda se consolidava. Na periferia, o entusiasmo era enorme. Consumidores e empresas aumentaram o endividamento e os gastos. Na Espanha, a dívida privada atingiu 300% do PIB em 2008. Na Irlanda, somente o setor financeiro passou a dever mais de 400% do PIB. Nos dois países, houve bolha imobiliária. De modo geral, preços e salários subiram mais do que no núcleo da região, e acima dos modestos ganhos de produtividade. Houve perda de competitividade e forte elevação do déficit em transações correntes.

O financiamento desses déficits esteve longe de ser problema, pois os bancos do núcleo da região lá estavam, prontos para expandir seus negócios, na esteira do desaparecimento do risco cambial. A euforia chegou também ao sistema bancário. Entre 2000 e 2008, o déficit acumulado dos chamados PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) atingiu quase US$ 1,4 trilhão. No mesmo período, a exposição (a esse grupo) dos bancos da região nuclear do euro passou de US$ 500 bilhões para US$ 2,6 trilhões.

O desequilibrado quadro interno dos países da região, inclusive no tocante à inflação, dificultou a condução da política monetária. Provavelmente de olho no que acontecia na Alemanha, o BCE praticou juros que se mostraram baixos para outras economias. Entre 2001-02 e 2006-07, os juros reais foram negativos para todos os PIIGS, dando impulso extra às suas economias.

O que hoje se conhece como crise da dívida soberana nasceu, portanto, de problemas derivados da própria constituição do euro. De modo geral, a dívida pública explodiu quando foi preciso salvar o sistema bancário - a exceção é a Grécia, onde o desequilíbrio fiscal é mais antigo.

Os gregos foram os primeiros a perder acesso aos mercados. Os eventos que precipitaram essa situação não precisam ser lembrados. O importante aqui é examinar as opções disponíveis, tanto em 2010, quanto agora. Diante de indiscutível quadro de insolvência, assumi-la de pronto costuma ser melhor do que empurrar com a barriga.

Mas não é assim que o mundo funciona. Há incontáveis casos em que, sob circunstâncias parecidas, os envolvidos relutam em aceitar perdas, ou a derrocada de determinado projeto. Os líderes europeus não agiriam de outro modo.

Dentre os pilares da moeda única, o referente à disciplina fiscal virara letra morta havia bastante tempo, com a abundância de relações de déficit e dívida pública com o PIB bem acima dos estipulados 3% e 60%, respectivamente. Outros dois sofreriam forte abalo em maio de 2010, início das tentativas de salvar a Grécia por meio de créditos oficiais.

Segundo o espírito do acordo em torno da moeda única, o bailout (resgate) de países em dificuldades e a compra de títulos desses países pelo BCE não seriam possíveis. Ao se descumprir o combinado, possivelmente fechou-se a porta para o aprofundamento de todo o projeto.

Mais financiamento oficial e exigências adicionais de austeridade dificilmente resolverão a questão. De fonte geradora de ganhos para a região, o euro transformou-se em motivo de ressentimento, atrito e sofrimento. De um lado, os alemães, em cujos ombros recai o ônus maior das transferências, relutam em arcar com o custo de desajustes em outros países. De outro, a população das nações periféricas, forçada a amargar recessão e desemprego por longo período de tempo. Tal situação é insuportável.

Apenas reestruturar a dívida também não resolveria, pois restaria o problema de financiar os déficits em conta corrente. O expediente de início utilizado - crédito bancário - não mais existe.

Não é absurdo imaginar, portanto, que o euro seja um projeto insustentável. Cedo ou tarde, a opção de abandonar a moeda única e resgatar algumas das antigas moedas nacionais será considerada, caso em que estaria restabelecida a possibilidade de desvalorização cambial, tão útil em tantas circunstâncias.

Eventuais decisões nesse sentido, porém, não serão tomadas espontaneamente por dirigentes políticos, mas impostas pelos eleitores, do núcleo e da periferia da região.

SÓCIO-DIRETOR DA MCM CONSULTORES E AUTOR DO LIVRO "POLÍTICA MONETÁRIA - IDÉIAS, EXPERIÊNCIAS E EVOLUÇÃO" (FGV, 2010).

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