A crise e as promessas de Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não precisará cumprir a ameaça, formulada na Espanha, de pôr o dedo no nariz de seu amigo George W. Bush para cobrar-lhe a solução da crise no mercado hipotecário - um problema, segundo ele, estritamente americano. Os dirigentes do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, anteciparam-se a Lula e surpreenderam o mundo ao cortar não 0,25, mas 0,5 ponto porcentual do juro básico americano. Não o fizeram só para atenuar um problema de liquidez ocasionado pela crise das hipotecas, mas para diminuir o risco de recessão na economia responsável por uns 30% do Produto Mundial. O mundo financeiro recebeu com entusiasmo a decisão do Fed, mas é cedo para dizer se o perigo está afastado. Ainda ontem, o economista Robert Shiller, da Universidade de Yale, falou no Congresso dos Estados Unidos sobre o ''''risco significativo'''' de uma recessão no próximo ano, se a desvalorização dos imóveis for muito acentuada. Especialistas poderão discutir, nos próximos meses, se a economia mundial continuará a crescer, embora menos que nos últimos anos, ou se o ciclo de prosperidade iniciado com o novo milênio será seguido por uma fase de estagnação. Antes do fim do ano o Fed ainda poderá reduzir os juros mais uma vez, se o cenário continuar assustador. Mas o Brasil, seja qual for a evolução dos fatos e dos debates, nada poderá fazer de importante para mudar o cenário internacional. Para os brasileiros, a questão essencial é muito mais simples: como agirá seu governo diante de um quadro internacional menos benigno? Na segunda-feira, em conversa com empresários espanhóis, em Madri, o presidente Lula formulou duas promessas: pressionaria o colega Bush para resolver o problema e não deixaria a crise ''''atravessar o Atlântico e chegar ao Brasil''''. Não explicou por que a crise teria de atravessar o Atlântico para alcançar o território brasileiro. Mas a imagem deve ter parecido naturalíssima aos espanhóis, habituados a pensar em americanos e europeus como separados por um oceano. Geografia à parte, o problema essencial subsiste. Se os Estados Unidos entrarem numa recessão, ou simplesmente passarem a crescer muito menos que nos últimos anos, o maior mercado consumidor do mundo ficará estagnado. Mau para os indianos e chineses. Muito pior para os brasileiros. China, Índia e outros emergentes não deixarão de competir ferozmente pelos mercados do Primeiro Mundo. E como ficarão os brasileiros, quando os compradores de todo o mundo estiverem menos dispostos a gastar e a redução do crescimento afetar a demanda de matérias-primas e bens intermediários? Desde o início do primeiro mandato, em 2003, o governo petista foi favorecido por uma economia global em rápida expansão. Isso facilitou o rápido crescimento das exportações. A valorização cambial trouxe alguma dificuldade, nos últimos dois anos, mas o dólar barato contribuiu para evidenciar - ou para tornar mais evidentes - as principais fraquezas da economia brasileira. Todas, ou quase, são da alçada governamental: tributos errados e excessivos, enorme cunha fiscal nos financiamentos, infra-estrutura deficiente (com enormes desvantagens de custo), educação muito ruim, escassez de mão-de-obra qualificada (faltam até pedreiros, como se noticiou há poucos dias), baixo investimento em tecnologia, burocracia pesada e muita incerteza jurídica. Neste momento, o governo batalha para renovar a Contribuição sobre a Movimentação Financeira (CPMF), um dos piores impostos de um dos piores sistemas tributários do mundo. Ponto contra o Brasil. Para facilitar a tramitação do projeto sobre a CPMF, o Executivo anulou até ontem três Medidas Provisórias (MPs), duas delas de caráter econômico. Mais insegurança jurídica. Uma das MPs disciplinava o comércio dos sacoleiros. Boa ou má, havia criado um regime legal para uma atividade. De repente, esse regime acabou. A outra estabelecia benefícios para os chamados ''''órfãos do câmbio''''. Foi substituída por um projeto de lei. Trocou-se um dispositivo já em vigor por uma proposta dependente de aprovação pelo Congresso. E se algum empresário tiver assumido um compromisso com base na MP revogada? Quanto à infra-estrutura, está na dependência dos projetos empacadíssimos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Assim estará o País, tudo indica, quando a crise, se houver crise, chegar por aqui, seja através do Atlântico ou por outro caminho. Se passar pelo Oceano Índico, tanto melhor. Levará mais tempo para chegar. *Rolf Kuntz é jornalista

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