A crise hídrica não é situação passageira
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A crise hídrica não é situação passageira

É preciso tratar a crise como um problema estrutural, que tende a repetir-se com intensidade, diante do aprofundamento das mudanças climáticas

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 08h01

Não dá mais para encarar a crise hídrica como fato isolado e conjuntural, como mero ponto fora da curva. É preciso tratá-la como problema estrutural. O sistema elétrico do Brasil tende a não mais dar conta do recado. E o mesmo acontece com os sistemas de água tratada.

Esta crise não pode ser vista como apenas a pior dos últimos 90 anos. Ela tende a repetir-se, com intensidade que não se pode precisar agora. Tivemos situações desse tipo também em 2001, em 2007 e em 2014. A de agora pega o País mais arrumado do ponto de vista da oferta de energia elétrica. O sistema está mais integrado e em 20 anos foi possível dotar a economia com reservas de geração térmica.

Esta crise acontece depois de sete anos de crescimento medíocre da economia, em que o consumo permaneceu contido e, no entanto, desembocou na situação atual. O período mais seco pode estar apenas começando ou pode repetir-se mais frequentemente.

Não basta tratar a escassez com apelos à economia dentro de casa, com racionamento e com apelos a práticas mais racionais de uso. É preciso garantir mais capacidade de geração de energia elétrica. Como não há recursos públicos para esse investimento – tanto não há que foi preciso privatizar a Eletrobras –, a saída é incentivar o investimento privado.

Alguns especialistas advertem que não se pode continuar isentando os produtores/consumidores de energia distribuída das despesas de rede. Em princípio, é preciso cobrar deles essa tarifa para que esses custos não continuem sendo descarregados sobre os demais consumidores.

No entanto, o momento é de que o custo mais alto para o País seja continuar sujeito a crises assim, cuja resposta não pode limitar-se ao aumento da conta de luz pela bandeira tarifária. Por isso, a política energética brasileira precisa acelerar os incentivos tanto em geração de energia limpa (solar, eólica e biomassa) como, também, em energia termoelétrica por usinas mais eficientes.

O risco não é apenas de crise de oferta de energia. É também de escassez de água. Como noticiou o Estadão da última sexta-feira, o abastecimento de água vem prejudicando os municípios das Bacias do Rio Grande, Rio Paranaguá, Paranapanema e Paraguai, num momento de retomada da economia, a ponto de já estarem sendo decretados rodízios e racionamento do consumo.

O uso de água doce disponível vem crescendo. Há mais residências no Brasil servidas com rede de água encanada, o que é fato auspicioso, mas que aumenta o consumo. A água está sendo cada vez mais demandada pela agricultura que recorre mais à irrigação, especialmente nos períodos de seca. Ou, até mesmo, mais água está sendo demandada pela necessidade de garantir melhores condições de vida às populações carentes – o que em última análise justifica a transposição do Rio São Francisco.

E é preciso, sim, atacar o desperdício. As perdas de energia elétrica e de água não são apenas técnicas. Muitos equipamentos ultrapassados e muito roubo prejudicam a oferta adequada e o bolso do consumidor. Mais de 39% da água tratada no Brasil escorre para fora do sistema.

Enfim, não bastam os apelos de que “sabendo usar, não vai faltar”.

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IBC-Br e a estimativa do PIB

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Os números de junho do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostram que, no segundo trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) pode ter crescido de 0,1% a 0,4%.

O IBC-Br é o levantamento do Banco Central que permite antecipar a evolução do PIB, que sai cerca de dois meses depois de terminado o trimestre calendário. Esse resultado por enquanto confirma as estimativas do mercado de que o avanço do PIB deste ano ficará em torno dos 5,3%. Hoje, o risco maior de uma frustração é a crise hídrica. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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