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Thiago de Aragão: investidor estrangeiro vê como irreal promessa de Guedes de 4 privatizações em 90 dias

A crise industrial e o baixo crescimento econômico

Industriais frearam o ímpeto investidor que havia prevalecido até 2010 para entender sua capacidade de concorrer com o produto estrangeiro

PRESIDENTE DO IEDI, DO CONSELHO , DE ADMINISTRAÇÃO DA NATURA, PEDRO LUIZ, BARREIROS PASSOS, PRESIDENTE DO IEDI, DO CONSELHO , DE ADMINISTRAÇÃO DA NATURA, PEDRO LUIZ, BARREIROS PASSOS, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h09

Gostaria de abordar dois temas objeto de intenso debate no País: a questão industrial e o desempenho decepcionante da economia brasileira já pelo segundo ano consecutivo. Eles guardam relação, pois a crise industrial é a mais relevante causa da frustração do crescimento. Assim, enquanto o PIB aumentou 0,7% no acumulado desse ano até setembro, a indústria regredia 1,7%. A conexão entre esses dois termos da equação econômica brasileira se dá pelo investimento.

Este sofre uma contração severa desde a segunda metade de 2011, em parte porque o investimento público, incluindo a Petrobrás, esbarrou nos obstáculos de gestão e de financiamento. Foi também decorrência do colapso das inversões do setor industrial, que vem perdendo gradativamente fatias de sua participação em mercados externos e no próprio mercado interno para a produção realizada no exterior. Daí porque o empresário industrial refreou o ímpeto investidor que prevalecera até 2010, pelo menos até se tornar mais claro o quadro de sua capacidade de concorrer com o produto estrangeiro. É imprescindível que o Brasil retome o investimento para crescer mais e de forma sustentada e isso passa obrigatoriamente pela redinamização das inversões industriais.

Como um maior nível do investimento é também condição para que a indústria se modernize e amplie seus níveis de produtividade e inovação, o que se traduzirá em melhor competitividade, podemos afirmar que de um ponto de vista geral reside na reativação do investimento a chave da solução do problema econômico do País.

Isso pressupõe uma política industrial não apenas acomodadora dos impactos da crise global, mas, sobretudo, transformadora de nossas bases de produção. O País não se recuperará plenamente da crise industrial se não atrair capitais para os setores mais representativos das recentes ondas de revolução industrial que redefiniram as estruturas industriais das economias atualmente líderes mundiais.

São os casos do complexo eletrônico, das tecnologias de informação e comunicações, da indústria farmacêutica e de um variado leque de atividades sustentáveis e de alta eficiência energética e intensidade tecnológica, todos com grande capacidade de gerar e difundir inovações e impulsionar a produtividade do conjunto da indústria. Operar a política industrial com o objetivo de atualizar a indústria brasileira exigirá atribuir prioridade máxima à perspectiva de longo prazo e, correspondentemente, reservar às ações de curto prazo uma ênfase subordinada. Medidas em áreas como defesa comercial e subvenções a setores mais atingidos pela crise podem e devem permanecer, mas sem que se perca de vista o foco da mudança das bases industriais do País.

Como cabe insistir, a indústria não voltará a ter competitividade e não resgatará as posições de destaque que já desfrutou no comércio mundial se não ampliar significativamente a inovação e a produtividade. Contudo, outros condicionantes também precisam ser redimensionados, um ponto no qual o governo vem procurando atuar.

Na área cambial, ao que tudo indica a política econômica não aceitará valorizações excessivas na moeda, muito embora não se espere que, ao contrário de outros países, venha a usar o câmbio como fator extra de competitividade. É importante perseguir reduções de custos sistêmicos a exemplo das tarifas de energia elétrica, custo do crédito e desoneração da folha de salários. As medidas levarão um certo tempo para surtirem efeito e ainda são parciais, havendo muito a fazer na tributação, em logística, no financiamento voluntário de longo prazo e em outros custos de matérias primas fundamentais como o gás.

Em tendo sequência e ganhando profundidade as ações que o governo já vem adotando, é possível que em 2013 o quadro da geração de valor na manufatura seja mais favorável do que em 2012, o que pode abrir caminho para novos investimentos. Será essa a contribuição da indústria a um crescimento maior do PIB. Para além de 2013 o setor poderá aportar muito mais desenvolvimento ao País se a redefinição do marco de referência da política industrial e um novo direcionamento dos mecanismos de apoio existentes caminharem na direção da mudança estrutural.

Estando o investimento no centro das dificuldades vividas pela indústria e pela economia brasileira, caberia uma resposta rápida da política econômica visando reerguê-lo. A sugestão consiste em promover a desoneração integral e definitiva dos investimentos, incluindo o ICMS e o ISS, e instituir por um prazo como dois a três anos a depreciação acelerada dos investimentos, mecanismo potente que vem sendo utilizado com sucesso em países industrializados.

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