A crise na Rússia e o Brasil

Para o Brasil, 2015 já estava se configurando um ano econômico difícil antes mesmo de a Rússia mergulhar em sua crise financeira. Agora que a fuga do rublo se transformou na fuga de moedas de mercados emergentes em geral, 2015 está começando a se parecer aziago como 1999.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2014 | 02h02

Agosto de 1998, não custa lembrar, presenciou o súbito e inesperado calote da dívida externa do governo russo. Isto foi um sinal de alerta para investidores que, tomados pelo pânico, liquidaram seus ativos de risco, entre outro, seus bônus brasileiros. Esta reação criou problemas muito graves para grandes investidores institucionais com posições longas em alguns desses ativos arriscados, que eles tinham considerado subvalorizados. A principal vítima foi o Long-Term Capital Management (LTCM), o mega fundo hedge cujo colapso só foi evitado por um resgate emergencial costurado por seus bancos de investimento credores. Outra vítima, porém, foi o Brasil, que sofreu uma grande evasão de capitais, provocando o colapso de seu regime cambial e fazendo o real perder quase dois terços do seu valor em menos de dois meses.

Desta vez, o real já vinha caindo antes da crise russa, refletindo o fraco crescimento brasileiro e dúvidas sobre o plano econômico da presidente Dilma Rousseff. A questão agora é se eventos como os de 1998-9 poderiam se repetir.

Há certas bases para esperar que não. Hoje não parece haver um grande investidor institucional tão exposto ao risco russo como o LTCM em 1998. O calote da Rússia em agosto de 1998, não custa lembrar, foi um choque inesperado. Desta vez, foi possível observar os problemas da Rússia se aproximando e se preparar para o pior. Bancos americanos e europeus já haviam reduzido consideravelmente sua exposição à economia russa antes do aprofundamento de suas dificuldades este mês. Somente bancos austríacos, especializados em fazer negócios na Europa oriental, continuam significativamente expostos.

Por sua parte, grandes fundos mútuos em mercados emergentes como o Franklin Templeton não possuem bônus russos. Mas esses fundos mútuos possuem bônus de outros países exportadores de petróleo que foram atingidos pela mesma queda dos preços do petróleo que hoje castiga a economia russa. A boa nova é que esses fundos mútuos de mercados emergentes não estão alavancados. Eles investem subscrições de seus acionistas, e não recursos emprestados, por isso, diferentemente do LTCM, não podem ser desestabilizados por uma incapacidade de cumprir uma chamada de margem e, portanto, precisar se endividar. Eles ainda podem ser forçados a liquidar suas carteiras de bônus, porém, caso seus investidores de varejo, desapontados, corram para a saída, uma ação que desestabilizaria ainda mais mercados como o brasileiro.

O maior perigo é se esta turbulência afetar o mercado de títulos do Tesouro americano. Os exportadores de petróleo (incluindo a Rússia) como um todo são aos terceiros maiores investidores em títulos do Tesouro americano, depois somente de China e Japão. Se as quedas das receitas de petróleo e necessidade de intervenção crescente os forçarem a vender seus títulos do Tesouro americano, as taxas de juros americanas terão uma alta acentuada. Este é um cenário para o qual ninguém está preparado. Uma grande quantidade de investidores importantes seria apanhada de surpresa. Nós estaríamos então num verdadeiro território financeiro inexplorado.

Domesticamente, pode-se argumentar que o Brasil atual está numa posição mais forte do que estava em 1999. Uma taxa de câmbio flexível permite que o real se ajuste mais suavemente e livre o banco central de ter de sustentá-lo em níveis insustentáveis. O endividamento geral e a dívida líquida do governo como porcentagens do PIB são mais baixos do que em 1999. Como o governo reduziu sua dívida em dólares, um real mais fraco não aumenta suas dificuldade para cumprir pagamentos do serviço da dívida.

Infelizmente, as dívidas em dólares do setor corporativo são maiores agora, não menores. Só a Petrobrás tem quase US$ 100 bilhões em dívidas denominadas em dólares, mas muitas de suas receitas são em reais. Este problema não afeta somente a Petrobrás, mas o governo, já que a empresa ainda é 60% estatal. O escândalo de lavagem de dinheiro na empresa e o atraso na divulgação dos resultados financeiros do terceiro trimestre de 2014 não estão ajudando. Investidores estrangeiros agora estão cientes do fato de que outras companhias brasileiras como Gol, BRF e Natura Cosméticos também têm dívidas em dólares significativas.

A coisa mais importante que o governo de Fernando Henrique Cardoso fez em 1999 para encerrar a crise foi impulsionar reforma financeira, consolidação fiscal e privatização, que juntas ajudaram a restaurar a confiança do investidor. O segundo governo de Dilma Rousseff ainda terá de mostrar uma determinação similar, embora o anúncio feito na semana passada de que o Tesouro não fará mais transferências subsidiadas ao BNDES seja um sinal promissor. Uma nova vassourada no topo do BNDES também ajudaria.

Portanto, embora haja paralelos entre 1999 e 2014, há diferenças também. Onde em 1999 a ameaça à internet vinha do Bug do Milênio (a possibilidade de sistemas operacionais entrarem em pane por não conseguirem distinguir entre os anos 2000 e 1900), hoje ela vem de hackers norte-coreanos. Onde 1999 viu a rainha da Inglaterra abrir o primeiro parlamento escocês em 300 anos, 2014 viu eleitores escoceses rejeitarem a independência num referendo histórico. Economicamente falando, resta ao Brasil esperar que as semelhanças sejam menores do que as diferenças. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Barry Eichengreen é professor da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Universidade de Cambridge 

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