A crise que existe e a que não existe
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A crise que existe e a que não existe

O que dá, sim, para dizer é que esta crise econômica – e não há como mudar o nome desse boi – é diferente das anteriores

Celso Ming, Impresso

09 Julho 2017 | 05h00

Pois, então, Temer desembarcou sexta-feira em Hamburgo, onde participou da reunião do Grupo dos 20 (G-20), e surpreendeu com a afirmação quase dogmática: “Crise econômica no Brasil não existe. Estamos crescendo no emprego, na indústria, no agronegócio” – falou e disse.

Uma coisa é o testemunho do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, de que a economia ficou mais resistente. E outra, bem diferente, é Temer negar o inegável.

Algumas informações, ainda tímidas, dão conta de que há certo aumento de postos de trabalho. Mas não dá para ignorar o desemprego de 13,8 milhões. Há também pálida recuperação da indústria, mas não dá para ignorar três anos de recuo constante na atividade nem três anos de recessão econômica que derrubou a renda real média do brasileiro em nada menos que 9,1%.

Também não dá para ignorar a enorme deterioração das contas públicas, o rombo fiscal que, depois de tudo o que se fez para estancá-lo, deve fechar este ano ao redor dos 2,5% do PIB e a dívida bruta que avança em direção aos 80% do PIB. E paira no ar a ameaça de emperramento dos projetos de reforma. Se esses não são dados importantes que apontam para o tamanho da crise econômica, então os diagnósticos sobre o estado das coisas não valem nada.

O que dá, sim, para dizer é que esta crise econômica – e não há como mudar o nome desse boi – é diferente das anteriores na medida em que não produziu corrida ao dólar, apresenta contas externas saudáveis, não acusa ameaça de quebra de bancos, exibe exuberância nunca vista do agronegócio e conta com um mergulho da inflação para 3,0% em 12 meses. Isso não é pouco, mas não significa inexistência de crise.

Agora, convém analisar a inflação negativa de 0,23% em junho. É errado afirmar, como se ouve por aí, que o recuo da inflação para 3% em 12 meses seja pura consequência da recessão e da retração do consumo que acompanha a queda da renda e o desemprego.

NOS EIXOS: No 1º semestre, preços subiram menos do que em um único mês de 2016

Ao longo dos últimos três anos, a atividade econômica afundou e, no entanto, apesar da queda da renda, a escalada dos preços continuou. Mais ainda, o tombo da inflação não se concentra em apenas um ou dois setores da economia. Está espalhado, tanto geograficamente, como em número de itens atingidos pela queda de preços.

Aponta, também, para certo crescimento da renda média, ao refletir queda dos preços dos alimentos, dos transportes (baixa dos combustíveis) e dos artigos de residência, itens de consumo essencial de forte peso na cesta de consumo, que tem mais a ver com o aumento da oferta e redução de custos do que com queda da demanda.

A inflação bem mais baixa produz consequências positivas em três áreas. Reduz a realimentação (indexação ou intensidade de reajustes automáticos de preços e salários). Aumenta a punição com encalhe de mercadoria (e serviços) daqueles que reajustem os preços acima da inflação, ao contrário do que acontece em tempos de forte disparada de preços, quando as remarcações se multiplicam. E tende a aumentar a confiança no Banco Central e, nessas condições, reforça a eficácia da política monetária (política de juros). A queda persistente da inflação exige correção das contas públicas e isso não está nos radares de ninguém.

ENTENDA

» O que é deflação

Inflação negativa não é o mesmo que deflação. Inflação negativa é pontual, acusa queda de preços em um mês ou alguns meses seguidos. Deflação é um processo mais longo. É pernicioso à economia porque produz enormes distorções. Leva o consumidor a adiar compras ao ficar à espera de preços cada vez mais baixos. Tende a aumentar dívidas, quase nunca reajustadas para baixo, e induz ao entesouramento, porque as aplicações financeiras tendem também a ser negativas, como acontece hoje na Europa.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.