A culpa nem sempre é da economia

Diante das expectativas do crescimento nacional em 2012 - estimadas entre 3,2% e 4% - e de novos investimentos que chegam com os eventos esportivos no Brasil, os executivos das empresas questionam como capturar um crescimento sustentável aproveitando esse contexto positivo. Para isso, é importante descobrir qual o valor gerado pelas companhias para sociedade e acionistas, seguindo os princípios de uma economia sustentável. Ou seja: o que realmente é culpa, ou mérito, da economia e o que deve ser atribuído aos gestores da iniciativa privada do Brasil e América Latina?

WILSON JENSEN, LÍDER DA ÁREA DE ESTRATÉGIA DA , ACCENTURE, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2012 | 03h09

Historicamente, os últimos dez anos propiciaram elementos para o desenvolvimento das organizações no continente. Algumas empresas da América Latina tiveram expansão significativa nas vendas e ativos, assim como retorno sobre o capital de mais de 50%.

Governos abriram suas economias e estabeleceram políticas pró-mercado, a inflação caiu para apenas um dígito, enquanto o produto interno bruto cresceu 33% mais rápido. A expansão da região tem sido de 5,3% desde a crise financeira de 2008 e 2009, consideravelmente melhor que os 2,4% dos EUA e 1,7% da Europa.

No entanto, a influência desse cenário favorável não necessariamente impacta em um desempenho bom no mercado. Uma análise da Accenture sobre os resultados financeiros de 529 empresas da região verificou que somente 35% ampliaram as atividades como resultado direto do crescimento industrial na região.

O ponto relevante é que o aumento de receitas esteve em 65% dos casos associado a decisões gerenciais acertadas, apoiadas pela definição de metas agressivas, ênfase em crescimento e a adoção de fórmulas simples para atingir o objetivo de negócios.

Esses fatores foram e são decisivos para o sucesso das companhias latino-americanas. Para se ter ideia, as empresas de alta performance estabeleceram metas de expansão 30% mais ousadas que as concorrentes do mercado. Para cada iniciativa de investimento, as empresas optaram por uma de redução de custos.

O estudo ainda mostrou que essas companhias operaram entre 75% e 100% do seu potencial e reinvestiram mais de 25% do valor de seus bens. As empresas ainda possuem características comuns, como a vocação em desenvolver estratégias bem definidas, um time de lideranças forte e estruturas organizacionais simplificadas.

Um dado interessante é que apenas 9% das companhias cresceram associadas ao desempenho econômico do seu país, enquanto 26% foram alavancadas pela expansão geral da indústria na região. Com isso, fica mais claro que as decisões empresariais têm mais peso para o desenvolvimento dos negócios, do que simplesmente as tendências do ambiente econômico.

Como as oportunidades de fácil crescimento para as empresas - praticamente inexistentes nos dias de hoje - desaparecerão completamente, quem pretende obter uma expansão mais rápida ou manter seu crescimento terá que atuar em outras geografias ou desenvolver soluções inovadoras em produtos e serviços. Isso se a estratégia de negócios for investir em crescimento orgânico.

Oportunidades em fusões e aquisições também são importantes, especialmente em pequena escala. Nesse caso, as companhias terão que ter uma maior disciplina nos processos de auditoria, cuidado especial ao gerenciamento de diferenças culturais e devem procurar garantir a manutenção dos principais talentos da corporação adquirida.

Como as empresas terão metas mais ambiciosas, elas devem ainda manter uma preocupação com os seus sistemas de gerenciamento de desempenho, para poderem ir além da utilização dos indicadores financeiros habituais. A análise de dados passa a ser decisiva para acelerar movimentos de mercado e antecipar decisões estratégicas. Por isso, a necessidade de conhecer a fundo as informações dos diversos departamentos da companhia.

Outra tendência é a de segmentar seus mercados e adaptar suas proposições de valor. Entretanto, os negócios ao se tornarem maiores também ficam mais complexos e isso deve ser levado em conta. Para se manterem competitivas, elas devem simplificar cada vez mais suas estruturas e a terceirização de processos, em busca da eficiência operacional. E, claro, observar o ambiente econômico e manter o foco nas decisões empresariais acertadas.

Apenas uma em 20 companhias conseguiu atingir um crescimento sustentável nos últimos 10 anos. A pergunta atual é quem conseguirá ser relevante e se destacar nos próximos 10?

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