Taba Benedicto/Estadão
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Elena Landau
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A cultura brasileira vai perdendo seus grandes nomes e um pouco de sua graça

País sem memória é um país que não se conhece. E o cinema é parte da construção da verdadeira memória nacional

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2022 | 04h00

Morreu Arnaldo Jabor. Nos últimos anos, o cinema brasileiro perdeu Nelson Pereira dos Santos, Roberto Farias e Hector Babenco. Sem eles e outros artistas e intelectuais, que partiram recentemente, a cultura brasileira vai perdendo seus grandes nomes e um pouco de sua graça.

Para a minha geração, é uma perda tremenda. Chega de Saudade foi lançado no ano em que nasci, Doralice é minha primeira lembrança musical.

Pode ser o caminho natural. Ninguém vive para sempre. O consolo é que a finitude da vida não significa a finitude das obras.

Não consigo deixar de associar essas mortes ao assassinato da cultura que vem sendo cometido pelo governo. Da total inadequação dos nomes que comandam a pasta à perseguição cotidiana aos artistas brasileiros. O Goebbels tupiniquim, que comandou a Secretaria da Cultura, já era o sinal dos novos tristes tempos. O projeto é calar vozes que, pela própria natureza da arte, são inquietas, críticas, inconformadas e questionadoras.

O atual secretário, Mario Frias, junta a ideologia fascista à mediocridade. O ressentimento do artista fracassado explica parte dessa destruição e a mesquinharia de suas decisões. O incêndio da Cinemateca Nacional é a sua cara.

Bolsonaro, e sua trupe deste circo de horrores, quer colocar todos os brasileiros em seu cercadinho. Não se limita à destruição da Lei Rouanet – que quase ninguém sabe como funciona, mas é contra assim mesmo. Está no desrespeito ao patrimônio histórico, aos museus, ao cinema e a toda cultura nacional.

Trazem no peito o discurso de patriota, num nacionalismo tacanho. Não sabem o que é o Brasil. País sem memória é um país que não se conhece. Destroem a história para tentar escrever uma nova narrativa, montada em mentiras e construída pela combinação de ideologia com a mais pura ignorância.

O cinema é parte da construção da verdadeira memória nacional e, ao mesmo tempo, um lugar de invenção de um país. O Cinema Novo é marca tão forte de nossa história como a Semana de Arte Moderna. Filmes de Glauber Rocha são citados entre os melhores da história do cinema.

Eu te amo mudou minha vida. Para Jabor, o cinema significava “fazer cair o manto da mentira e mostrar a nudez forte da verdade”. 

Além de cineasta, foi um jornalista e escritor de enorme influência. Polêmico e instigador. Dono de um estilo inconfundível.

Até em seu velório, a transgressão esteve presente. Um telão ao fundo mostrava trechos de seus filmes. Cenas de nudez, sexo, beijos, sangue e facadas se alternavam enquanto os amigos se despediam. Ele teria adorado. 

*ECONOMISTA E ADVOGADA. CONTRIBUI COM O PLANO ECONÔMICO DE SIMONE TEBET

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