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A cultura nacional determina as horas de trabalho

Levantamento indica que a 'cultura do lazer' constitui um importante fator para determinar quanto as pessoas trabalham em um país

Leonid Bershidsky, Bloomberg View

25 de junho de 2015 | 17h35

Por que, em alguns países, as pessoas têm um expediente de trabalho mais prolongado? As explicações mais comuns têm a ver com regulamentações da área trabalhista e com a carga tributária, mas quem viaja com frequência observa que trabalho e lazer têm um valor diferente, dependendo do lugar. Se isto parece preconceito, basta ver as conclusões a que chegaram duas economistas dos Estados Unidos num novo documento de trabalho para o Departamento Nacional de Pesquisas Econômicas. 

No documento, Naci Mocan e Luiza Pogorelova, ambas da Louisiana State University, concluem que, entre as nações europeias , a "cultura do lazer" constitui um importante fator para determinar quanto as pessoas trabalham.

Em 2004, Edward Prescott, vencedor do Prêmio Nobel daquele ano, mostrou que, quanto maior a alíquota marginal efetiva do imposto sobre a renda produzida pelo trabalho - ou seja, a parcela de cada dólar futuro ganho pelo trabalho que o governo decide redistribuir - menos horas as pessoas trabalham. Igualmente importante é o fato de que, nesta equação, o imposto inclui a parcela do empregador, e que as companhias estão menos interessadas em obrigar as pessoas a trabalhar mais quando elas precisam abrir mão de uma parte maior da renda resultante.

A conclusão foi inesperada, até para o próprio Prescott. "Estou surpreso", ele escreveu, "porque praticamente todas as enormes diferenças entre a oferta de mão de obra americana e a da Alemanha e da França se devem às diferenças dos seus sistemas fiscais. Eu imaginava que as restrições institucionais à atuação dos mercados de mão de obra e a natureza do sistema de benefícios aos desempregados seriam de grande importância".

A conclusão de Prescott tem sido frequentemente contestada em razão de sua simplicidade. Em 2006, Olivier Blanchard, chefe da equipe de economistas do Fundo Monetário Internacional, realizou um estudo mostrando que a teoria baseada na questão fiscal nem sempre explicava as variações da oferta de mão de obra: A complexidade era muito grande.

O trabalho de Mocan e Pogorelova focaliza as diferenças entre os países europeus, baseadas em estatísticas recentes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), e confirma a relação entre a carga tributária e o trabalho. Por exemplo, em 2012, os belgas, cuja carga tributária marginal chega a nada menos que 57%, trabalharam em média 989 horas; os portugueses, com uma carga de 41%, trabalharam 1.237 horas.

Entretanto, as pesquisadoras isolaram mais um elemento na complexa trama de motivos que determinam quanto as pessoas trabalham: as atitudes em relação ao trabalho e ao lazer. Para tanto, elas usaram um recurso engenhoso: uma amostra de 7 mil imigrantes de segunda geração que vivem e trabalham em 26 países europeus. Estas pessoas são submetidas ao mesmo ambiente fiscal e regulador dos trabalhadores nativos, mas provavelmente são "contagiadas" pelas atitudes dos seus pais em relação ao trabalho e ao lazer importadas dos países de origem.

Mocan e Pogorelova utilizaram dados da World Values Survey e do European Values Study, que perguntaram às pessoas em diversos países sobre estas atitudes ao longo dos anos, como por exemplo: "Indique até que ponto é importante o lazer na sua vida", "Você concorda com a afirmação: Pessoas que não trabalham mostram que são preguiçosas?", "Você concorda que o trabalho deveria sempre vir em primeiro lugar, mesmo que signifique menos tempo livre"?. Comparando as diferenças nestas atitudes e as diferenças em termos das horas trabalhadas entre os imigrantes da segunda geração e os trabalhadores nativos, Mocan e Pogorelova concluíram que existe uma relação válida do ponto de vista estatístico entre as "culturas do lazer" e as horas dedicadas ao trabalho.

Por exemplo, se a predileção dos belgas pelo lazer se reduzisse ao nível dos portugueses , o número de horas trabalhadas na Bélgica aumentaria 4%.

"A cultura do lazer" influi menos do que os impostos no desejo das pessoas de trabalharem mais , em parte porque o efeito varia significativamente para os homens e para as mulheres, determinaram Mocan e Pogorelova. Aparentemente, os homens reagem mais intensamente ao estímulo financeiro, enquanto para as mulheres os outros aspectos da vida são igualmente importantes.

As conclusões das pesquisadoras acrescentam outra dimensão à maneira como as autoridades deveriam abordar o crescimento. Proporcionar às pessoas os incentivos fiscais para trabalhar mais provavelmente ajudará, mas apenas até que estes incentivos esbarrarem em obstáculos culturais. A certa altura, o número de horas trabalhadas deixa de aumentar porque as pessoas valorizam muito o seu lazer. Então, a economia só poderá crescer mais se a população crescer, se as pessoas se tornarem mais produtivas, ou ambas as coisas.

Em países como França, Dinamarca, Holanda e Bélgica, onde a produtividade varia de 93 a 96% em relação à dos Estados Unidos e a imigração é menor, o crescimento econômico é naturalmente menor em razão de restrições culturais. Isto é bom: um crescimento maior, dificilmente tornaria as pessoas mais felizes. / Tradução de Anna Capovilla


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