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A cúpula do G-20 e a briga dos cachorros grandes

O assunto mais importante não será o que está na agenda dos debates, e sim a esperada reunião entre Donald Trump e Xi Jinping, em meio às chipas de uma áspera guerra comercial

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 20h00

Já aconteceu outras vezes e deve acontecer também desta vez.

No encontro dos chefes de Estado e de governo das 20 maiores economias do mundo, para mais uma cúpula do Grupo dos 20 (G-20), o assunto mais importante não será o que está na agenda dos debates. Será a ansiosamente esperada reunião entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, em meio às chispas de uma áspera guerra comercial.

A globalização acelerada não pode mais esperar por articulações árduas e demoradas reuniões formais entre chefes de Estado que culminem em tratados discutidos à exaustão. Foi preciso instituir mecanismos ágeis em que os grandes problemas do mundo pudessem ser debatidos prontamente e suas soluções, implementadas de forma coordenada. Foi para isso que, nos anos 1970, se instituiu o Grupo dos Sete (G-7), que, a partir de 2009, precisou ser ampliado para 20, uma vez que a pretendida coordenação global de políticas não poderia dispensar a participação dos países emergentes.

Desta vez, o maior problema enfrentado pela economia mundial é a forte desaceleração da atividade econômica. O Fundo Monetário Internacional vem denunciando que a economia global enfrenta “fragilidades” e que a retomada continua “precária”. E analistas de vários calibres advertem de que o baixo crescimento econômico ameaça se tornar o novo normal.

Nesse cenário preocupante, quando toda a energia política deveria estar concentrada para impedir a volta da recessão, trabalham na contramão as incertezas semeadas pela guerra comercial entre os dois gigantes, Estados Unidos e China.

Na ânsia de colocar em prática seu principal objetivo (America first) e de reduzir seu rombo comercial, o presidente Trump aumentou as tarifas alfandegárias sobre US$ 200 bilhões por ano em produtos provenientes da China, ameaça avançar sobre outros US$ 300 bilhões e, ainda, quer travar seu desenvolvimento tecnológico, principalmente na área de telecomunicações. Pequim revidou com aumento das alíquotas alfandegárias sobre produtos dos Estados Unidos e ameaça proibir exportações de terras raras, materiais estratégicos utilizados na produção de equipamentos de tecnologia de ponta. Os especialistas calculam que apenas essas tensões podem derrubar o PIB global em pelo menos 0,5%, efeito que produziria novas quebras de renda, desemprego e desdobramentos políticos adversos pelo mundo.

A levar em conta a retórica de parte a parte, a conclusão seria a de que essa briga de cachorros grandes tenderia a se agravar. Mas há hoje razões para acreditar em que pode tomar outra direção. A principal delas é eleitoral.

O presidente Trump já começou sua campanha e conduz suas políticas de olho nas eleições presidenciais de novembro de 2020, quando pretende ser reconduzido para mais quatro anos à frente da Casa Branca. Uma forte deterioração da economia mundial, e, com ela, da dos Estados Unidos, seria desastrosa para sua candidatura, dentro do reconhecimento de que o principal cabo eleitoral é a excelente condição da economia. É só lembrar o slogan que derrubou George W. Bush na vitória de Bill Clinton em 1992: “É a economia, idiota”. Já se alastra nos Estados Unidos certo descontentamento entre os eleitores de Trump com o não cumprimento de suas promessas. Uma recessão teria tudo para azedar ainda mais o seu jogo político.

Isso não significa que esse encontro de Osaka, no Japão, onde será realizado, desmontará os lança-mísseis de Estados Unidos e China. O que se pode esperar é apenas por sinais mais claros de que essa guerra tenda a refluir nos próximos 18 meses. Se isso acontecer, pode-se então considerar que a cúpula de Osaka terá tido grande êxito.

O presidente Bolsonaro também estará lá. Sabe que não está bem na fita. Seu principal objetivo talvez seja tentar recuperar sua imagem tanto entre chefes de Estado como na mídia global.

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