A Daslu nas mãos dos Jereissati

Shopping JK, o empreendimento mais emblemático do Grupo Iguatemi desde os anos 60, deve abrigar grifes estrangeiras que hoje estão na Daslu e até a própria marca de Eliana Tranchesi

Cátia Luz e Patrícia Cançado, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

Há dois meses, o anúncio de que o Grupo Iguatemi iria assumir a administração da Villa Daslu - conjunto comercial que abriga a marca Daslu e outras grifes - causou espanto no mercado. Da noite para o dia, os dois arquirrivais do varejo de luxo tornaram-se parceiros. Mais: o acerto entre as empresas deve alterar dramaticamente os rumos do templo de Eliana Tranchesi.

Em setembro do ano que vem, o JK Iguatemi, novo shopping dos Jereissati, deve ser inaugurado ao lado do prédio da Villa Daslu na Marginal do Pinheiros, em São Paulo. Quando isso acontecer, a Daslu poderá deixar a suntuosa mansão que leva o seu nome - e que se tornou a sua marca - para se transformar apenas em mais uma loja do novo projeto de seu tradicional concorrente.

"A alternativa de tirar a Daslu do prédio original e levar para o novo shopping é a mais lógica", revela Carlos Jereissati Filho, presidente do Grupo Iguatemi. A justificativa da mudança estaria na abissal diferença arquitetônica entre os dois prédios. Caso a Daslu e todas as demais grifes se mantenham onde estão, o Iguatemi passará a gerir um complexo de luxo formado pelo atual prédio em estilo neoclássico e o JK, que deverá ter uma arquitetura mais contemporânea.

"Você há de convir que, como aquilo tudo será um único complexo, a arquitetura tem de ser a mesma", diz Jereissati. A Daslu informou por meio de sua assessoria de imprensa que avalia a possibilidade de instalar-se no JK, mas que ainda não chegou a uma decisão.

Jereissati conta que muitas das marcas que estão hoje no espaço da Daslu, operadas ou não por Eliana Tranchesi, já procuraram o Iguatemi com interesse de ir para o JK. Mas só migrarão para o shopping aquelas que fizerem sentido dentro do portfólio, avisa. "Eles querem uma operação de maior volume, que gere tráfego de pessoas", diz o empresário, sem revelar os nomes das grifes.

Esvaziado, o atual prédio da Villa poderia passar a abrigar escritórios comerciais, segundo executivos do mercado. A mansão pertence à construtora WTorre, que tem uma participação de 50% no empreendimento JK.

Se a ideia de um prédio único não vingar, a alternativa será integrar, por meio de um corredor ou uma alameda, as duas construções - por mais que isso não agrade a Jereissati. "A mistura entre o antigo de verdade e o moderno é bacana. Eu, particularmente, não gosto do estilo neoclássico. Para um desavisado, JK e Daslu juntos até passam. Mas quem entende vai ver que aquilo lá é uma composição", afirma Jereissati. "Mas essa não é uma decisão minha. É do Walter Torre, da WTorre." Procurada, a construtora informou que está em período de silêncio exigido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A empresa está prestes a abrir seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo.

Antes mesmo da definição sobre o futuro da Daslu, a parceria com o Iguatemi já provocou discórdia no mercado. A construtora JHSF, dona do shopping de luxo Cidade Jardim, quer denunciar a Daslu por quebra de contrato de exclusividade. Desde 2008, a Daslu tem uma loja no shopping Cidade Jardim. E, pelo contrato, a grife não poderia se instalar em empreendimentos concorrentes.

Com uma situação financeira delicada, Eliana Tranchesi decidiu terceirizar a gestão da Villa Daslu em 2008 para se dedicar mais à sua própria operação no prédio. Na época, a escolhida para administrar a Villa foi a BR Malls. Quando perguntado por que assumiu o posto só agora, Jereissati responde: "Negócios são feitos quando as vontades convergem. Você tinha a gente fazendo um shopping enorme, a Daslu com interesse em focar na sua operação própria e a construtora WTorre querendo reassumir o seu prédio. Ali, naturalmente a BR Malls era um peixe fora d"água."

Novo pólo. No mercado, o novo shopping está sendo visto como uma extensão do Iguatemi. "O JK será um novo pólo de luxo da cidade. Como o Iguatemi não tem mais espaço, várias grifes vão acabar indo para lá", diz Vicente Melo, representante da italiana Missoni, que acabou de abrir sua segunda loja no Brasil. "Não há uma semana que eu não receba um e-mail ou uma ligação de executivos de marcas de luxo querendo vir para o Brasil. E o primeiro shopping que esses caras querem é o Iguatemi."

O Iguatemi São Paulo é um caso único na indústria de shopping center no Brasil. Já foi objeto de estudo da Universidade Harvard e é um dos endereços mais valorizados do comércio mundial. Na lista mais recente, feita pela empresa de serviços imobiliários Cushman & Wakefield, o shopping brasileiro aparece entre os dez metros quadrados mais caros das Américas. No ranking mundial, ocupa a 15ª posição. "O Iguatemi é um dos shoppings mais antigos do Brasil, mas se recicla de tal forma que está sempre moderno e atual", diz o presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Luiz Fernando Veiga.

O interesse das grifes estrangeiras pela marca Iguatemi pode ser medido pela agenda dos executivos do grupo. Nesta semana, Jereissati e outros três diretores do Iguatemi embarcam para a Europa para um "road show" comercial do JK. Na pauta, mais de 50 encontros marcados com lojistas de grifes como a francesa Louis Vuitton, as italianas Prada e Bottega Veneta e a loja de departamentos sueca H&M. No mês que vem, o destino é Nova York. "A gente achou interessante fazer um esforço concentrado, como o road show para investidores, aproveitando a nossa experiência na Bolsa", diz Jereissati. "No passado, era muito difícil convencer marcas estrangeiras a vir para o Brasil. Hoje a situação se inverteu."

O Iguatemi tem uma fila de espera que, segundo os executivos do grupo, daria para encher um outro shopping do mesmo tamanho. E a ideia é que o JK seja um "primo-irmão" do Iguatemi. O conceito do mix de lojas é o mesmo: 25% a 30% de marcas estrangeiras e o restante de grifes brasileiras, não exclusivamente de luxo. A principal diferença é estética: enquanto um foi o primeiro shopping brasileiro, construído como um caixote de concreto, o JK terá teto e paredes de vidro, dentro de uma proposta de maior integração com a rua.

Desconfiança. O JK está a menos de dois quilômetros de distância do Iguatemi, o que gera desconfiança sobre o sucesso comercial do projeto. Jereissati não se incomoda com essa tese. Para ele, não vão faltar consumidores. Para explicar os novos investimentos do grupo para a corretora Hedging Griffo, do banco Credit Suisse, disse que o melhor jeito de comprovar seu otimismo era olhar pela janela. A corretora fica na avenida Faria Lima, próxima do novo empreendimento, que experimentou um boom imobiliário nos últimos anos. "Casinhas de rua estão virando prédios em que o menor apartamento tem 350 metros quadrados. Veja o potencial de consumo que isso representa."

O JK faz parte de um projeto ambicioso do grupo para dobrar de tamanho - em termos de área bruta locável - até 2014. Em dezembro do ano passado, o Iguatemi levantou R$ 400 milhões na Bolsa para financiar sua expansão. Mais da metade do dinheiro será gasta com a construção de novos shoppings.

Há um mês, o grupo entregou uma de suas grandes apostas: o Iguatemi Brasília. Pela primeira vez, grandes marcas internacionais - como Zegna, Emporio Armani, Burberry e Nespresso - desembarcaram no Planalto Central. "Ninguém faz tão bem uma seleção de grifes. Eles conseguem aliar o luxo à escala", afirma Roberto Bielawski, dono da rede de restaurantes Ráscal.

Para manter esse mix, o Iguatemi também fez inimigos. O caso mais recente foi parar no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Há três anos, o shopping Eldorado entrou com um recurso contra o Iguatemi por impedir que seus lojistas se instalassem em empreendimentos concorrentes. No episódio, o shopping da família Jereissati acabou multado pelo Cade, que considerou seu contratos com os lojistas abusivos.

O "primo-irmão" do Iguatemi

O JK Iguatemi fará parte de um complexo que inclui três torres de escritórios e um hotel. A previsão de inauguração é setembro 2011

O empreendimento, que fica a 2 km do Iguatemi São Paulo, terá um mix de lojas parecido: 30% de grifes estrangeiras e o restante ocupado por marcas nacionais

As áreas comuns foram projetadas por Eric Carlson, ex-diretor de arquitetura da Louis Vuitton. Seus corredores terminam em paredes de vidro

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