A de cadência do 'berço' do McDonald´s

Durante um tenso debate público na última terça-feira, os líderes políticos de San Bernardino, na Califórnia, concordaram com o corte de 30% no orçamento de 2013, a ser apresentado pela prefeitura aos vereadores no dia 6 de agosto. De imediato, US$ 12 milhões serão ceifados até meados de setembro, na forma de suspensão de pagamentos a fornecedores e a detentores de títulos municipais. Com déficit público de US$ 45,8 milhões e sem fontes para cobri-lo, San Bernardino havia declarado falência em 10 de julho e, uma semana depois, em emergência fiscal.

O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h08

A cidade de 210 mil habitantes, a 100 km de Los Angeles, figura como o segundo maior caso de falência municipal dos Estados Unidos, depois de Stockton, também na Califórnia. Como a maioria das cidades desse Estado, San Bernardino prosperou nos anos 2000, quando a economia americana se expandia, e o financiamento imobiliário realizava o sonho da casa própria das classes média e baixa. A arrecadação de impostos sobre propriedades e sobre vendas alimentou até mesmo projetos ambiciosos para atrair americanos de classe alta para a cidade.

Um aeroporto internacional foi construído, apesar da presença de outros dois na vizinhança. Embargada pelo governo federal por suspeita de corrupção na contratação de serviços, a obra ainda gerará despesa de US$ 7 milhões ao município nos próximos doze meses. "Por que essas pessoas moram aqui? O centro é horrível, não há parques e atrações culturais na cidade e nem mesmo oportunidade de trabalho e de negócios", questionou Kim Carter, diretora executiva da fundação Time for Change, cuja missão é dar assistência a mulheres carentes e aos 7 mil sem-teto da cidade.

A crise de 2008, detonada justamente no setor imobiliário, trouxe a dificuldade da cidade de equilibrar suas contas e, pior ainda, a ausência de perspectiva. Desde então, a prefeitura cortou 40% da folha de pagamento, mas não pôde tocar nas corporações que consomem cerca de 75% do orçamento da cidade - a polícia e o Corpo de Bombeiros. Ambas são beneficiadas por uma emenda na Constituição municipal que prevê o reajuste dos salários conforme a média de cinco cidades da região e têm como aliados quatro dos sete vereadores.

Na sessão de terça-feira na Câmara de Vereadores, não chegou a ser cogitada a única medida capaz de permitir um ajuste menos doloroso nas contas de San Bernardino. A solução defendida pelo economista John Husing é a extinção dos departamentos de Polícia e de Corpo de Bombeiros e a contratação do Condado (o xerife) para prover esses serviços. Cerca de 200 policiais, afirma Husing, recebem salários anuais superiores a US$ 100 mil, enquanto a média para os demais servidores públicos, inclusive os professores, é de US$ 38.640.

Para Husing, a razão dos males de San Bernardino está no sistema político local, que prevê a eleição de um vereador para cada uma das sete áreas da cidade. Por isso, não há visão de conjunto, e o consenso é quase impossível. Na última década, a mudança desse sistema foi proposta em três eleições. Mas apenas 12,7% dos eleitores votaram no último pleito municipal.

Sombra do passado. A economia da cidade vive do comércio para as classes média baixa e baixa. Não há indústrias nem atividade agrícola em San Bernardino. O desemprego alcançou 15,9% em maio, e inúmeras famílias perderam suas casas por não terem como pagar as hipotecas. A cidade é uma sombra do que foi até a década de 70, quando a presença de uma base da Força Aérea americana gerava 12,5 mil empregos diretos na cidade. Naquela época, a siderúrgica Kaiser Steel empregava mais 8.800 trabalhadores, e a unidade de manutenção da Santa Fé Trail Road mantinha outros 4.500.

San Bernardino recebeu em 1977 o título de "All-American City", uma premiação anual às dez melhores cidades do país, e vivia o auge da Rota 66, que a atravessa. Tinha sido o berço da rede de fast-food McDonald's, cuja primeira loja fora aberta no número 1.398 da rua E Norte em 1940 pelos irmãos Maurice (Mac) e Richard (Dick) McDonald's e fechada 13 anos depois. O Carousel Mall, maior shopping center da redondeza, era uma atração para a classe média no centro da cidade, assim como o vizinho prédio art deco da sede das lojas de departamento Harri's. A Prefeitura envidraçada compunha, com esses dois centros comerciais, o centro vibrante da cidade.

Segundo Husing, o pesadelo de San Bernardino começou em 1980, quando foi inaugurada a rodovia interestadual 215, a 32 km da cidade. Com isso, o centro comercial da região transferiu-se de San Bernardino para a vizinha Ontario. Nos anos seguintes, a Kaiser Steal e a Santa Fé Road transferiram suas unidades e, em 1988, a base aérea foi fechada. A maioria dos aposentados, no fim dessa década, vendeu suas casas para investidores e passou a alugar imóveis. "Em vez de cidade de operários qualificados, San Bernardino tornou-se uma cidade de pessoas de baixa renda sem casa própria", explicou.

Hoje, apenas a Prefeitura ainda gera alguma movimentação a essa área. O Carousel Mall tem apenas 17 pontos comerciais ativos. Está praticamente abandonado, assim como o seu imenso carrossel. O prédio da Harri's é uma estrutura sombria - as portas permanecem fechadas e bloqueadas por grades e correntes de ferro. Não há hotéis nem as logomarcas favoritas do comércio de classe média dos EUA. "Os únicos negócios que prosperam aqui são os de comida barata, como o meu, ou de produtos a US$ 0,99", comentou Albert Okura.

Neto de japoneses, Okura é dono do restaurante mexicano Juan Pollo, cujo prato mais barato custa US$ 5. O empresário mantém, desde 1989, o Museu McDonald's no lugar onde funcionou a primeira loja da rede, mas o espaço não tem nenhuma relação com a companhia, sediada em Illinois. Outro negócio ainda próspero na cidade, o de produtos para cabelos, mantém o coreano James Kim no Carousel Mall, entre os corredores vazios. "Tenho clientela já formada. Vou sobrevivendo", disse.

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