Gabriela Biló/Estadão
Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro Gabriela Biló/Estadão

A debandada do time dos sonhos de Guedes

Vinte meses após o início do governo, restam apenas 2 dos 7 secretários especiais originalmente escolhidos pelo ministro para auxiliar na sua guinada liberal

Lorenna Rodrigues e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 13h43

BRASÍLIA - Logo após a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, o então conselheiro econômico do candidato, Paulo Guedes, anunciou que estava formando o seu “dream team” (time dos sonhos) para o superministério, que abarcaria Fazenda, Planejamento, Trabalho, Indústria e Comércio Exterior. Apenas 20 meses após o início do governo, restam somente dois dos sete secretários especiais originalmente escolhidos por Guedes para auxiliar na sua guinada liberal.

Do time titular que entrou em campo em janeiro de 2019 continuam em suas cadeiras apenas o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos Alexandre Da Costa, e o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues.

Carlos da Costa seguiu em alta com o ministro, que aposta na aprovação de novos marcos regulatórios para turbinar a retomada dos investimentos no pós-pandemia. A aprovação do novo marco do saneamento e a agenda de votações de leis para os mercados de gás natural, petróleo e energia elétrica prometem longevidade ao secretário no cargo.

No entorno do ministro, seguem firmes os membros do seu seleto time de “assessores especiais”, que conta com dois ex-ministros de governos anteriores: Esteves Colnago e Guilherme Afif Domingos.

Também nesse grupo de confiança de Guedes, a economista Vanessa Canado ganhou protagonismo com o envio da primeira proposta do governo para a reforma tributária, ao lado do secretário especial da Receita Federal, José Tostes Neto.

Debandada

O reconhecimento, em agosto, pelo próprio ministro Guedes de que há uma debandada na pasta veio com as primeiras justificativas explícitas de insatisfação dentro da equipe. No caso do secretário especial de Desestatização, Salim Mattar, o motivo foi a lentidão das privatizações, estagnadas na pandemia, mas travadas desde antes por pressões políticas.

O secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, preferiu deixar o cargo a permanecer “engavetado” no ministério junto com a proposta de reforma administrativa,  que acabou saindo pouco depois.

A primeira baixa no “dream team” de Guedes também foi motivada pelas reformas. O ex-secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, acumulou desgastes com a ala política do governo em diversas frentes da reforma tributária e deixou o cargo em setembro do ano passado. A proposta de recriação da CPMF para bancar a desoneração da folha de salário minou o caminho do economista na pasta. Ironicamente, quase um ano depois, o plano para inventar um novo imposto sobre transações financeiras continua sobre a mesa de Guedes.

O ministro também perdeu dois auxiliares que foram “promovidos” justamente por avançarem em suas agendas. O ex-secretário especial de Comércio Exterior, Marcos Troyjo, foi indicado em junho para a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento - o “Banco do Brics”, com sede em Xangai, após o sucesso na conclusão do acordo entre Mercosul e União Europeia no ano passado.

O ex-secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, colheu os louros da aprovação da reforma da Previdência - o maior feito do atual governo na economia até agora - e foi alçado ao posto de ministro do Desenvolvimento Regional. Agora aliado à ala militar do Planalto, ele tem sido o maior “rival” de Guedes no embate sobre a abertura da torneira de gastos do governo no pós-crise.

O ministro acumula ainda perdas nos bancos públicos. O liberal ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy foi defenestrado por Bolsonaro do comando do BNDES em junho de 2019, porque, supostamente, resistiria a abrir a “caixa preta” do banco de fomento. Em pouco mais de um ano à frente do banco, Gustavo Montezano não sofreu a mesma pressão do presidente.

Também o ultraliberal Rubem Novaes deixou a presidência do Banco do Brasil, alegando dificuldades em mudar a cultura da instituição de capital aberto - que transita entre o mercado e o Estado. Novaes deve em breve ser incorporado ao time de assessores especiais do Guedes.

Por outro lado, o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, continua em ascensão após ter concentrado o pagamento do auxílio emergencial a mais de 66 milhões de pessoas durante a pandemia. Responsável também pela gestão do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), Guimarães tem trânsito garantido na alta cúpula do governo.

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Guedes espera pedido de demissão de secretário que irritou Bolsonaro

Waldery Rodrigues, da Fazenda, é considerado 'superfiel' ao ministro, mas já vinha apresentando problemas de relacionamento com a equipe

Lorenna Rodrigues e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 13h43

BRASÍLIA - Depois das críticas públicas do presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, espera que o secretário de Fazenda da pasta, Waldery Rodrigues, peça demissão do cargo. Segundo auxiliares de Guedes, Waldery é considerado um secretário “superfiel” ao ministro, mas já vinha apresentando problemas de relacionamento com a equipe.

De acordo com as fontes, havia muitas críticas ao comportamento do secretário fora e dentro do ministério, e a “fritura” de Bolsonaro deve acelerar uma mudança que já ocorreria. Mas Guedes é próximo de Waldery, e a solução “mais fácil” seria o próprio secretário apresentar um pedido de demissão.

Na terça-feira, 15, o presidente Jair Bolsonaro disse que daria “cartão vermelho” a quem sugeriu congelar o reajuste de aposentadorias para bancar o natimorto Renda Brasil, programa que Guedes queria criar em substituição ao Bolsa Família. Waldery falou do tema em entrevista ao G1. Mais tarde, Guedes disse, em live, que o cartão vermelho não era para ele.

Brigas

De acordo com as fontes, as desavenças com Waldery ajudaram a afastar do governo nomes como Mansueto Almeida e Caio Megale e da secretaria de Fazenda Esteves Colnago e Jefferson Bittencourt.

Em dezembro do ano passado, Waldery provocou uma saia justa ao declarar que Mansueto, então secretário do Tesouro Nacional, deixaria o cargo. A afirmação, também dada em entrevista, causou desconforto porque ocorreu pouco tempo depois de Mansueto ter acertado com o ministro da Economia sua permanência no cargo por mais um período.

O caso levou Waldery e Mansueto a irem juntos até a sala do comitê de imprensa do Ministério da Economia, onde ficam os jornalistas que fazem a cobertura diária, para afastar os ruídos que mexeram com o mercado. A "operação abafa" foi montada pela área de comunicação de Guedes, preocupada que a notícia dada por Waldery se espalhasse.

O ministro chegou a juntar os dois auxiliares em uma reunião para acertar os “ponteiros”. Mansueto acabou deixando o governo apenas em julho deste ano.

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