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A decisão do Copom

BC não precisa esperar votação final da reforma para iniciar ciclo de cortes

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2019 | 05h00

Com a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara dos Deputados, a grande dúvida dos analistas não é mais se o Copom vai cortar os juros na sua próxima reunião, marcada para o dia 31 deste mês, mas de quanto será essa redução, se 0,25 ponto ou 0,50 ponto porcentual.

É cada vez maior a visão de que, se for para injetar estímulo suficiente para tirar a economia brasileira do marasmo atual, apenas um corte mais agressivo funcionará.

No comunicado e na ata da última reunião do Copom, o Banco Central deu a entender que a aprovação da reforma da Previdência era um requisito essencial para o início de um ciclo de corte da taxa Selic, atualmente em 6,50%. Essa foi, ao menos, a interpretação da esmagadora maioria dos analistas, embora o presidente do BC, Roberto Campos Neto, tenha ressaltado não haver uma relação mecânica entre reformas e juros.

Será suficiente a aprovação da reforma da Previdência apenas no primeiro turno para o Copom iniciar o ciclo de corte de juros já na sua reunião deste mês?

Diante do placar surpreendentemente elevado de aprovação do texto-base da reforma, por 379 votos a 131 contra, o sentimento é que o projeto dificilmente deixará de passar em segundo turno na Câmara, votação que ficou para depois do recesso parlamentar, em 6 de agosto. Mais: que será aprovado sem desidratação adicional relevante ao texto que sobreviveu à votação dos destaques, com uma economia ao redor de R$ 900 bilhões em dez anos, nos cálculos do governo.

Assim, o Copom não precisará esperar a votação final da reforma na Câmara, tampouco os dois turnos obrigatórios no Senado, para iniciar um ciclo de corte de juros. Além do mais, o “timing” de votação na Câmara e também a potência fiscal do texto aprovado superaram positivamente as expectativas da maioria do mercado.

Nesse cenário mais robusto para a trajetória fiscal da Previdência, sem falar na economia que resultará da aprovação da medida provisória de combate às fraudes nas concessões de aposentadorias e de outros benefícios, há espaço para um ciclo mais agressivo de corte de juros, na visão de muitos analistas.

Na mais recente pesquisa Focus, do BC, o consenso das estimativas aponta para uma taxa Selic de 5,50% no fim deste ano, ou seja, um ciclo de cortes de 1 ponto porcentual nos juros. Nessa magnitude, alguns creem que o BC deveria iniciar o afrouxamento monetário com uma redução mais tímida, de 0,25 ponto. Mas há quem considere que o Copom deveria antecipar o seu orçamento e cortar a Selic em 0,50 ponto em julho, sobrando outra redução de 0,50 ponto, diante de uma atividade econômica ainda muito fraca.

Se o Copom decidir, de fato, iniciar o ciclo com uma redução dos juros de 0,50 ponto, será necessário deixar claro, no comunicado que acompanhará a decisão, que está antecipando o orçamento de afrouxamento monetário. Caso contrário, o mercado vai refazer imediatamente suas apostas e aumentar o tamanho do ciclo de corte de juros. É bom lembrar que já há instituições financeiras que projetam uma Selic a 5,0% no fim deste ano, ou seja, prevendo uma redução de 1,50 ponto porcentual dos juros.

“Se o Copom fizer algo diferente de uma redução de 100 pontos-base, é mais provável que o corte seja maior e não menor do que isso”, diz o economista-chefe da Porto Seguro Investimentos, José Pena. Ele projeta uma Selic a 5,50% no fim deste ano. “Eu, hoje, faria dois cortes de 50 pontos-base, pois a atividade econômica está no chão e o grande risco de alguma surpresa negativa com a aprovação da reforma da Previdência diminuiu dramaticamente.”

É bom lembrar que, horas antes de o Copom anunciar sua decisão, o Federal Reserve deve, provavelmente, iniciar também um ciclo de corte dos juros americanos, dando mais conforto ao BC brasileiro de injetar estímulo monetário.

Além do mais, conforme a última pesquisa Focus, a inflação projetada para 2019 (em 3,82%) e 2020 (em 3,90%) está abaixo das respectivas metas do BC, de 4,25% e 4,0%. Se um corte de juros mais agressivo não conseguir salvar o crescimento do PIB neste ano, cuja projeção está em 0,81%, talvez possa evitar outra frustração em 2020. 

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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