André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

‘A decisão foi covarde. Prevaleceu o medo”

Para economista, País precisa de um ‘refresco dos juros’, mas Copom preferiu se proteger das críticas do mercado

Entrevista com

Luiz Carlos Mendonça de Barros, diretor estrategista da Quest Investimentos

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2016 | 22h41

Para o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, diretor estrategista da Quest Investimentos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central tomou uma “decisão covarde”. Segundo ele, fez um corte de apenas 0,25 ponto porcentual na Selic, a taxa básica de juros, quando tem espaço para ir 0,50 ponto, porque teme o julgamento dos analistas financeiros. “Prevaleceu o medo das críticas dos radicais do mercado financeiro”, diz ele. Para Mendonça de Barros, os sinais são inequívocos de que a recuperação está sendo travada justamente pelos juros. “O sinal claro é que a economia tentou melhorar um pouquinho e capotou sob os peso dos juros”, diz. A seguir trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Como o sr. avalia esse primeiro corte na Selic, de 0,25 ponto porcentual, após 4 anos?

Foi uma decisão covarde. Tem espaço para um corte de pelo menos 50 pontos.

Por quê?

Primeiro, porque a desinflação está surpreendendo todo mundo, quer seja por razões estruturais da recessão ou por causa de reduções de preços, como o da energia elétrica. Se você fizer uma média móvel dos três últimos meses, a inflação está correndo a 4%. Mas fica todo mundo olhando 12 meses, aí vai mesmo demorar para aparecer a queda. Segundo, a gente está vendo a desaceleração de toda a atividade, dos serviços, do comércio, da indústria. A economia está pedindo um refresco mais rápido dos juros. Terceiro, é um desrespeito com o esforço do Temer.

Como assim, desrespeito?

Desrespeito porque estão fazendo um esforço enorme para passar no Congresso a PEC do Teto (Proposta de Emenda Constitucional que fixa um limite para os gastos). Deram um passo grande na direção de começar a corrigir a questão fiscal.

O corte de 0,25 ponto, então, não faz a diferença necessária?

Não faz a menor diferença. Agora, qual é o problema? É a leitura retrógrada do sistema de metas – essa coisa de ficar olhando os 12 meses. Não é assim que funciona em nenhum lugar do mundo. Olha a discussão que se tem nos Estados Unidos hoje sobre aumentar ou não os juros. Lá, a inflação está em 1,2%, 1,3%, e não tem porque elevar os juros. Mas aqui é aquela coisa: fica o pessoal do mercado financeiro fazendo marcação em cima. Prevaleceu o medo das críticas dos radicais do mercado financeiro. Bullsheet para tudo isso. Do ponto de vista da economia, é só olhar os números que estão saindo. IPC. Fipe. O sinal claro é que a economia tentou melhorar um pouquinho e capotou sob o peso dos juros. Agora, a gente tem uma política econômica correta que já faz diferença. Olha os números. A Petrobrás já esteve a R$ 7 reais. Agora está a R$ 17. A Bovespa foi a 37 mil e já está em 64 mil. Não faz sentido isso aí. Para onde vai nos levar essa decisão? Vai levar o dólar abaixo de R$ 3 e reforçar a desinflação. É sandice. Mas é a cabeça desse pessoal radical. Nós tivemos de aguentar a estupidez keynesiana do PT e agora temos de aguentar a estupidez Fridiana desse pessoal (numa referência as teorias dos economistas John Keynes, mais à esquerda, e Milton Friedman, de corrente liberal).

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