A dependência ao capital especulativo

Por causa dos maus resultados da balança comercial, em 2015 o Brasil continuará dependente de capital especulativo externo para fechar o balanço de pagamentos, como ocorreu nos últimos dois anos. A alta da taxa básica de juros, agora em 12,75%, estimula as operações de carry trade, pelas quais investidores estrangeiros tomam empréstimos em seus países a juros baixos para aplicar em países que oferecem alta rentabilidade, como o Brasil.

O Estado de S.Paulo

18 de março de 2015 | 02h04

Com a retomada firme da economia americana, porém, o Fed, banco central dos EUA, pode elevar os juros, o que faria boa parte desse capital especulativo sair do País, como ocorreu no passado. Mas esse movimento poderá ser compensado pelo crescimento da liquidez internacional. O Banco Central Europeu (BCE), por exemplo, adotou uma política expansionista semelhante à que o Fed está abandonando: comprará 60 bilhões por mês de títulos dos países da zona do euro pelo menos até setembro de 2016.

Seria melhor para o Brasil que o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos - que foi de US$ 91,28 bilhões, em 2014 - pudesse ser coberto por investimentos estrangeiros diretos (IEDs), o que não ocorre desde 2012. Sob esse ponto de vista, os números, por enquanto, são desanimadores. O Banco Central (BC) projeta o ingresso de US$ 65 bilhões de IEDs este ano, o que exigiria a entrada de uma média mensal de US$ 5,4 bilhões. Mas, em janeiro, o ingresso foi de US$ 3,96 bilhões, bem menos do que a média prevista.

Estima-se que haverá um rombo de cerca de US$ 30 bilhões entre a soma de IEDs e a necessidade de recursos para cobrir o déficit em conta corrente. Enquanto a entrada de IEDs parece superestimada pelo BC, a de capital especulativo está sendo subestimada. O BC calcula que esta chegará a US$ 93,7 bilhões no ano. A entrada média mensal seria de US$ 7,8 bilhões, mas, em janeiro, o ingresso totalizou US$ 14,65 bilhões.

Há uma condicionante para a entrada de capital especulativo: o câmbio. A desvalorização do real atrai capitais, mas será preciso que, em algum momento, a cotação do dólar se estabilize. Se o investidor julgar que o real vai se depreciar mais, seu apetite diminuirá, pois levará em conta não só os juros, mas a taxa de câmbio na saída do capital, o que pode resultar em prejuízo.

As consequências da desvalorização do real vão além da inflação. O câmbio pode ser decisivo também para a evolução das contas externas.

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