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A derrocada da Petrobrás

O rebaixamento da nota de risco da Petrobrás foi um trágico ponto fora da curva para os planos da equipe de Joaquim Levy. A reação, em seguida, com medidas de cortes drásticos nas despesas do governo e aumento de impostos sobre salário, tem uma direção: provar aqui e no exterior que o Brasil fará o que for preciso para não perder sua classificação de grau de investimento, crucial para reconquistar a credibilidade, reconstruir o que foi destruído nos últimos quatro anos, facilitar o acesso a crédito externo e retomar o caminho do crescimento com novos investimentos.

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2015 | 02h04

Outras ações nessa direção estão na mira de Levy, mas ele se esqueceu de uma de poder limitado para a economia de gastos, mas com força política de frear a voracidade por cargos públicos de partidos políticos que ocupam ministérios, estatais e órgãos do governo: suspender contratações de assessores comissionados - os chamados DAS -, os fisiológicos parentes, amigos e cabos eleitorais trazidos de fora, que inflacionam a folha de pagamento, incham o serviço público e ocupam lugar dos funcionários de carreira. O momento é agora, em início de gestão, quando ocorrem essas contratações.

Embora tenha assinado os decretos de cortes, continua a dúvida sobre o real compromisso de Dilma Rousseff com as ações de Levy para corrigir os erros que ela própria cometeu no primeiro mandato. Sua reação ao rebaixamento da Petrobrás foi covarde: fugiu dos fatos e o atribuiu a um simples "desconhecimento do que está acontecendo na empresa". Com o País mergulhado no atoleiro político e econômico, ela saiu da encolha, foi ao palanque, prometeu mais programas sociais - como se estivesse em campanha eleitoral -, mas nenhuma palavra sobre o que fará para tirar o País do atoleiro.

Em 60 anos de história, a Petrobrás nunca foi tão esmagada, triturada, humilhada, tratada não como a maior e mais respeitada empresa do País, mas como reles instrumento político nas mãos de Lula-Dilma e caixa sem fundo de assaltos e roubalheiras de partidos políticos, funcionários desonestos e empreiteiras corruptoras.

A Petrobrás conseguiu a classificação grau de investimento em outubro de 2005 (pela mesma Moody's, que agora a rebaixa), quase três anos antes de o Brasil conseguir a mesma classificação, tal era a confiança de que ela desfrutava aqui e lá fora. Agora é o País que luta para fugir do contágio da empresa. Quando ela perdeu o monopólio do petróleo, em 1997, os descrentes apostavam que seria engolida na concorrência com as gigantes estrangeiras. A dedicação e competência de seus funcionários e um plano estratégico liderado pelo então presidente Henri Philippe Reichstul, focado em sua internacionalização, fizeram ruir a aposta dos descrentes. Foi quando passou a disparar seu valor patrimonial e de mercado.

No governo Lula o modelo de negócios da Petrobrás não mudou e até avançou, mas começaram as indicações de partidos políticos para cargos de direção e de sindicalistas para 2.º e 3.º escalões. Os ocupantes não eram mais pessoas de fora da empresa, como no passado, mas funcionários de carreira cooptados, que se defendiam argumentando que sem padrinho político nunca seriam promovidos. Virou rotina. Quem resistia era demitido e substituído pelos cooptados, que recebiam a missão de subtrair dinheiro da empresa para partidos políticos, sobretudo PT, PMDB e PP. É o que a Operação Lava Jato tem desvendado.

Dilma Rousseff tentou se livrar dos corruptos e autorizou a ex-presidente Graça Foster a substituir toda a diretoria. Mas foi com Dilma que ocorreram os mais graves erros de gestão, decorrentes do uso político da empresa. Além do longo congelamento dos preços dos combustíveis, que esvaziou o caixa, Dilma exigiu que a Petrobrás atuasse como única operadora e entrasse com um mínimo de 30% do dinheiro investido em cada poço do pré-sal. Era a ultrapassada visão intervencionista e estatizante de juventude que Dilma impôs à Petrobrás e a levou a um nível de endividamento insuportável, maior responsável pelo seu rebaixamento na classificação de risco.

*Suely Caldas é jornalista e professora da PUC-Rio. E-mail: sucaldas@terra.com.br 

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