A desastrosa política econômica de Bolsonaro

A desastrosa política econômica de Bolsonaro

Superministério da Economia não apenas deixou de combater, como agravou problemas estruturais que jogam o Brasil no círculo vicioso de baixa produtividade, desemprego e pobreza

*Claudio Adilson Golçalez, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2022 | 05h00

O potencial de crescimento brasileiro declinou para patamar muito baixo, provavelmente algo entre 1% e 2% ao ano, com o País ainda pobre e desigual. Com PIB por habitante (conceito paridade do poder de compra) em torno de US$ 14 mil, o Brasil deve estar atualmente próximo à 100ª posição no ranking organizado com base em dados do Banco Mundial. Uma vez atingido o pleno-emprego, a economia brasileira tem baixíssima capacidade de expansão da oferta de bens e serviços.

Nessas condições, quando o Banco Central necessita elevar os juros para conter os efeitos inflacionários secundários de choques de oferta, como os que estão ocorrendo desde o segundo semestre de 2020, há um elevado risco de derrubar a taxa de crescimento para nível negativo, podendo jogar o País na recessão.

Além disso, a taxa estrutural neutra de desemprego, estimada pelos economistas em aproximadamente 9%, é muito elevada. Mesmo com a economia operando próxima ao ponto de equilíbrio não inflacionário, mais de 9 milhões de pessoas em idade ativa continuarão desempregadas. Se somarmos os desalentados e os subocupados, esse número quase dobra. 

Esse elevado nível de desocupação tem múltiplas causas, mas a principal é a precária qualificação da mão de obra. Muitos que desejam trabalhar não têm as habilidades mínimas para conseguir um emprego. Claro, isso tem que ver com a fraca qualidade da educação, com a pobreza e com a enorme desigualdade de renda, que limitam as oportunidades para a formação profissional de uma enorme parcela da população.

Combater os pontos aqui levantados está longe do foco da política econômica capitaneada por Bolsonaro, Ciro Nogueira, Arthur Lira e, às vezes, por Paulo Guedes. Ao contrário, o que fizeram foi agravar as mazelas que sustentam o perverso círculo vicioso de baixa produtividade, elevado desemprego, pobreza e virtual estagnação da renda per capita.

Na educação, que tem muito que ver com economia, Bolsonaro já teve quatro ministros, incluindo Paulo Vogel, que ocupou o comando da pasta interinamente. Se houve abundância de ministros, inexistiu qualquer política para melhorar a qualidade de ensino.

Paulo Guedes e Arthur Lira mataram a excelente proposta de reforma tributária consubstanciada na PEC 110 do Senado, que, segundo estudos bem fundamentados, teria enorme impacto positivo no crescimento potencial. Da mesma forma, a reforma administrativa sucumbiu, as privatizações não andaram, anarquizaram-se as regras fiscais e faltou competência para ampliar a abertura da economia. Os investimentos da União, que já haviam caído muito, mesmo antes do atual governo, estão praticamente desaparecendo.

Talvez pior do que tudo isso é o Brasil ter se tornado um verdadeiro pária internacional, graças ao notório desprezo de Bolsonaro à democracia, aos direitos das minorias e ao meio ambiente.

*Economista e diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda.

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