ESG

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A desigualdade planejada

Sentenciamos os mais pobres a um futuro pior ao empurrá-los para a periferia distante

Pedro Fernando Nery, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 04h00

A história humana é marcada pela tensão entre os benefícios de nos aglomerarmos em cidades e os custos das doenças infecciosas. Assim observou Matthew Yglesias, do jornal Vox, sobre o coronavírus. Já no ótimo livro Cidade Caminhável, pré-covid, o urbanista Jeff Speck pontificara sobre as vantagens do adensamento, criticando as espaçadas cidades americanas baseadas em desenhos tidos como mais salubres.

Os ganhos econômicos da cidade densa podem ser vislumbrados em um “experimento” do governo americano no século passado, que pagou para que famílias pobres se mudassem para partes ricas de sua cidade. Como mostrou Raj Chetty, de Harvard, a nova vizinhança se mostrou fundamental para a mobilidade social. Isto é, o bairro em que uma criança cresce afeta o seu salário quando adulto. 

Ainda que o mecanismo não seja completamente compreendido pelos economistas, especula-se que estar mais próximo de melhores serviços e de pessoas mais escolarizadas e de maior renda contribua para o resultado. Assim, cidades com regras rígidas de construção, ao empurrar os mais pobres para periferias distantes, os sentenciariam a um futuro pior. 

Ninguém deve fazer isso tão bem quanto a aniversariante do dia, Brasília. Passadas seis décadas da sua inauguração, sua utopia de igualdade deu lugar a umas das capitais mais desiguais do Brasil. Seu zoneamento rígido faz com que parte expressiva da população tenha de viver bem longe do seu Plano-Piloto. A partir dali, garimpam oportunidades em uma economia em que boa parte da renda é distribuída pelo instrumento elitista do concurso público.

As anedotas são abundantes. Mais de 300 mil pessoas moram em Águas Claras ou em Águas Lindas. A primeira é espécie de zona franca das restrições do distante Plano-Piloto, vendida por corretores de imóveis como a “Manhattan do Cerrado”. Edifícios altos, próximos uns dos outros, sem os enormes descampados do plano de Lúcio Costa. Dos anos 90 para cá, Águas Claras virou destino de uma elite que não está disposta aos preços inflados do avião. “O coronavírus chegou em Brasília, já fez dois concursos e financiou um apartamento em Águas Claras”, diz a piada. 

Os nomes são parecidos, mas Águas Claras contrasta com Águas Lindas. A primeira tem o IDH da Noruega, a segunda, o da Palestina. Ali moram os que rumaram para Brasília, mas não conseguiram lugar nos quase 6 mil km2 do Distrito Federal. Águas Lindas já é o quinto município mais populoso de Goiás. É um dos mais violentos do Brasil, com taxas de homicídios que rivalizam com as da Baixada Fluminense.

Dentro do DF, a cidade planejada convive com o que pode ser a maior favela do Brasil: se chama Sol Nascente. De ocupação recente, ela se situa nas imediações da cidade-satélite de Ceilândia. Ceilândia foi criada nos anos 70, com a realocação de populações que ocupavam áreas públicas no Plano-Piloto, no âmbito da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI, que batizou a cidade). O Sol Nascente é a Ceilândia da Ceilândia.

Ceilândia aparece nos versos de Faroeste Caboclo, a famosa canção de Renato Russo de 1987 (é o lugar onde o protagonista é assassinado). O filme, de 2013, porém, não foi filmado lá: para imitar as condições da cidade-satélite brasiliense na época, as cenas foram filmadas nas ruas sem asfalto do Jardim ABC. Essa “nova Ceilândia” fica formalmente em um município goiano. A apenas 2 km dali, ergue-se um gigantesco condomínio, franquia do Alphaville na capital de maior PIB per capita do País.

Há exatos dez anos, Niemeyer afirmava que a evolução do desenho igualitário para uma cidade desigual o entristecia, no que avaliou como “divisão intolerável”. 

Após o trauma da pandemia e diante do remédio do distanciamento social, o economista Tyler Cowen receia que esse tipo de zoneamento excludente ganhe ímpeto, à medida que fortaleça o movimento conhecido como Nimby (“no meu quintal não”, em inglês). São os que defendem regras rígidas para as construções a fim de evitar a desvalorização dos seus imóveis e mais trânsito na vizinhança – às vezes, também com alegadas preocupações ambientais.

Já no polo contrário, a visão liberal se preocupa com a redução da oferta de imóveis que pressiona o preço dos aluguéis, e com o espraiamento decorrente que afasta os mais pobres de oportunidades. O êxito no combate à pandemia de metrópoles densas como Hong Kong e Cingapura deverá ser o contraexemplo contra a brasilianização. 

Este é um ano de eleições municipais: a experiência de Brasília mostra que elas podem importar tanto para a desigualdade quanto o que se decide no Congresso Nacional. 

* DOUTOR EM ECONOMIA 

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