A desvalorização do real

A desvalorização do real em curso decorre de duas causas significativas e de peso relevante: uma de origem externa e outra, doméstica. A primeira é internacional: tem havido uma valorização do dólar norte-americano refletindo tanto a recuperação em curso da economia quanto a sinalização futura de término do longo período de taxas de juros reais negativas. Evidentemente, esse é um movimento que não afeta só o Brasil, e as moedas de muitos países também têm se desvalorizado ante o dólar dos EUA.

Antonio Corrêa de Lacerda, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2015 | 02h05

O fato de outras moedas também se depreciarem reduz o impacto positivo que a desvalorização do real poderia ter na melhora da competitividade dos produtos do País no mercado externo, exceto, é claro, nos EUA. Ademais, o mercado internacional está em fase de retração, com a desaceleração do crescimento chinês e a estagnação europeia, depreciando não só o volume transacionado, como os preços, em especial das commodities. Ou seja, o impacto sobre a balança comercial não é imediato, como veremos a seguir.

No caso específico brasileiro, influenciam ainda as causas domésticas da desvalorização da moeda, de ordem econômica e política. Nos últimos cinco anos houve crescente deterioração das contas externas, com a elevação do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos de US$ 101,6 bilhões (4,5% do PIB), no acumulado de 12 meses, segundo nova metodologia do Banco Central (BC). O longo período de valorização do real e a perda de competitividade da economia provocaram a deterioração do balanço de transações correntes. Perdemos a capacidade de gerar saldos comerciais positivos e o déficit estrutural da balança de serviços e rendas (juros, remessas de lucros e dividendos, gastos com viagens internacionais, etc.) também se ampliou.

A vulnerabilidade da economia brasileira só não se materializa por três aspectos significativos. O primeiro é que o Brasil recebe cerca de US$ 60 bilhões ao ano de investimentos diretos estrangeiros, além de outros ingressos de capitais (bolsa, títulos, empréstimos, etc.), o que equilibra o balanço de pagamentos. O segundo aspecto é que o País tem US$ 370 bilhões em reservas cambiais, o que oferece relativo conforto ao BC e a investidores. O terceiro ponto foi a estratégia utilizada para manter juros domésticos elevados e ofertar swaps cambiais em valor equivalente a US$ 114 bilhões nos últimos dois anos, o que amenizou a demanda por dólar-papel para efeito de proteção (hedge) cambial. Isso adiou o ajuste cambial em curso, que reflete a combinação de fatores externos e internos.

No curto prazo há o ônus da elevação da inflação, pelo encarecimento dos produtos importados, e maior incerteza para os decisores, que não se sentem seguros para definir o nível da moeda. A volatilidade exacerba a incerteza, gerando adiamento de investimentos e outras iniciativas. No médio e no longo prazos, a desvalorização do real ampliará a competitividade da produção brasileira, tanto na concorrência com os produtos importados quanto para a exportação, especialmente para produtos de maior valor agregado.

O câmbio por si só não representa a solução para nossos problemas de competitividade, mas, sem uma moeda competitiva em padrões internacionais, não é possível preservar e avançar na (re)industrialização. É essa a oportunidade que surge para a economia brasileira, mas isso não será imediato nem virá automaticamente. É preciso que a moeda se desvalorize em termos reais, comparativamente às moedas dos países com que competimos doméstica e internacionalmente. Também é preciso levar em conta que o longo período de apreciação do real desarticulou cadeias produtivas locais, substituídas pelas importações, e diminuiu o espaço de participação no mercado exterior. Reverter essa tendência não será tarefa rápida nem fácil, mas é preciso perseverar no ajuste e nas condições de competitividade da economia. Não vale a pena, pois, sucumbir ao apelo fácil de uma revalorização do real e impedir a transformação potencial.

PROFESSOR-DOUTOR, É COORDENADOR DO PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM ECONOMIA POLÍTICA DA PUC-SP E CONSULTOR. SITE: WWW.ACLACERDA.COM

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