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A deterioração do poder dos bancos centrais

Discussões internas sobre os efeitos do poder que essas instituições detêm não dão a impressão de que seu sucesso é retumbante

Michael Sauga e Anne Seith, Spiegel Online/O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2014 | 02h06

Uma vez a cada seis semanas os mais poderosos protagonistas da economia global reúnem-se no 18.º andar de um feio edifício de escritórios próximo da estação ferroviária da cidade suíça de Basileia.

Integram o grupo a presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Janet Yellen, seu contraparte do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, e outros 16 dirigentes de política monetária de Pequim, Frankfurt, Paris e outros lugares.

Os participantes passam quase duas horas trocando ideias num debate presidido pelo presidente do Banco do México, Agustín Carstens. Garçons servem pratos refinados e vinho caro enquanto as autoridades discutem economia, crescimento e preços de mercado. Ninguém se preocupa com atas, mas os mais influentes gestores de dinheiro do mundo estão convencidos de que essas reuniões ajudam a ampliar e muito o seu conhecimento. "Ficamos sabendo o que motiva os nossos contrapartes", diz um participante.

Essas reuniões a portas fechadas realizadas nos domingos à noite, têm uma longa tradição. Mas desde que bancos centrais reduziram suas taxas de juros para quase zero, adquiriram dívidas soberanas e socorreram bancos, essas conversas durante um jantar adquiriram uma nova conotação, mais crítica.

Especialistas da área monetária de economias emergentes queixam-se de que as medidas adotadas por europeus e americanos estão abrindo caminho na sua direção para o dinheiro especulativo indesejado. Presidentes de bancos centrais ocidentais afirmam estar sob uma crescente pressão política. E recentemente, quando o anfitrião das reuniões - o diretor do Banco de Compensações Internacionais (BIS) Jaime Caruana - manifestou-se numa das suas raras aparições públicas, ele se referiu a uma "debilidade pós-crise crônica" e "risco". E as instituições monetárias, disse ele, correm "um sério risco de, com o tempo, esgotar seu espaço político de manobra".

São termos inusitados, especialmente agora que os presidentes dos bancos centrais do mundo, cinco anos após o colapso do Lehman, parecem mais poderosos do que nunca. Eles estabelecem as taxas de juros e controlam a base monetária, vigiam governos e bancos e, como o presidente do Banco da Inglaterra Mark Carney, são tratados de certa maneira como estrelas de cinema pelo público.

De uma maneira sem precedentes na história do pós-guerra, os "watchdogs" monetários - que não são eleitos e normalmente são independentes dos governos dos seus países - determinam o que ocorre na política e nos mercados. São os novos "senhores do universo". Mas suas discussões internas sobre os efeitos do poder que detêm não dão a impressão de que seu sucesso é retumbante. O crescimento é lento nas maiores economias do mundo; bancos, famílias e governos estão fortemente endividados; e a chamada política monetária não convencional adotada pelos presidentes dos bancos centrais enfrenta problemas em todos os lugares.

Mantendo a condução do barco. Nos Estados Unidos, os membros do Conselho Diretor do Federal Reserve tentam resolver a questão sobre quando devem parar de gastar trilhões de dólares na compra de papéis do Tesouro. No Reino Unido, o banco central confunde o público com anúncios contraditórios sobre decisões no tocante a taxas de juros futuras. E, na Europa, os órgãos de vigilância monetários do Conselho do BCE buscam uma maneira de combater as baixas taxas de inflação.

Na reunião mais recente do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, especialistas da área financeira e executivos do setor de bancos insistiram para que os presidentes dos bancos centrais continuem com sua política de oferta de dinheiro barato. Mais compras de títulos foram debatidas como também taxas de juros negativas e transações pelos bancos centrais envolvendo títulos de dívida com garantias. É como se existisse uma pressão para as autoridades monetárias inovarem no campo financeiro como ocorreu outrora com os bancos de investimento.

Os presidentes dos bancos centrais não se mostram particularmente impressionados. Estão mais inclinados a acreditar que já fizeram o bastante e se perguntam se suas ações podem estar agora mais prejudicando do que ajudando.

Entrevistas com alguns desses dirigentes e teóricos monetários dão a impressão de uma enorme divisão cognitiva: ao mesmo tempo que o público deseja que os bancos centrais continuem dirigindo a economia, os presidentes dessas instituições sentem que, cada vez mais, não são os únicos a conduzir o barco.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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