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A difícil mobilização da produção da indústria

Embora o auxílio emergencial tenha resultado num forte crescimento da demanda de bens industriais desde junho passado, a mobilização da oferta segue difícil e incompleta

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 22h30

Em dezembro, a produção industrial cresceu 0,9% ante novembro, atingindo um nível 8,2% maior que o do último mês de 2019.

Estes números são favoráveis e muito bem-vindos. Entretanto, não escondem o enfraquecimento sistemático do setor, que mostrou uma queda acumulada de 4,5% no ano passado, continuando uma tendência que vem desde o início da década passada. 

Embora o auxílio emergencial tenha resultado num forte crescimento da demanda de bens industriais desde junho passado, a mobilização da oferta segue difícil e incompleta. 

Mesmo oito meses depois, muitos produtos finais são vendidos, mas não entregues, por falta de partes, peças e componentes. Os casos mais emblemáticos são automóveis e motocicletas: estima-se que mais de 200 mil veículos e 150 mil motocicletas ainda estão por ser entregues. Naturalmente, os estoques do sistema estão reduzidos a níveis críticos. 

Inúmeros pedidos novos são apenas aceitos para um distante futuro e generalizou-se um processo de elevações muito substanciais de custos e preços, já a partir das matérias-primas básicas, químicas, metálicas, etc. Nos últimos meses, o preço do aço subiu 60% (e tem mais ajustes em fevereiro), da mesma forma que as resinas plásticas básicas (63%). Caixas de papelão, frascos de vidro, inúmeros produtos para construção civil e peças e componentes para o setor automotivo também têm dificuldades de suprimento e pressão de preços. 

Em todos os setores observa-se uma única decisão: ao invés de olhar a participação no mercado, as empresas buscam elevar suas margens e a sua geração de caixa. 

Ainda veremos quanto essas pressões impactarão na inflação deste ano.

A dificuldade de mobilização da produção tem inúmeras causas e a primeira é o desligamento de fornos e outros grandes equipamentos no início da pandemia. Isso foi uma resposta ao esperado colapso da demanda decorrente do fechamento de fábricas e de escritórios, levando as pessoas a ficarem em casa. Quando em junho a demanda cresceu abruptamente, por conta do coronavoucher, as empresas tiveram de correr para religar equipamentos e tentar cobrir o atraso da oferta, que em muitos casos ainda persiste.

Mas não foi só isso: em empresas nas quais a fragilidade financeira se elevou, tem havido muita dificuldade para atender novos pedidos por falta de capital de giro, afetando a montagem de produtos finais.

O mais recente relatório CEMEC-FIPE (sem Vale, Petro e Eletro) mostrou que, ao longo de 2020, voltou a aumentar a proporção de empresas cuja geração de caixa (EBTIDA) não consegue sequer pagar os juros da dívida. Depois de atingir 45% das companhias, no auge da recessão de 2015, esse número caiu penosamente para 24% no final de 2019, tendo se elevado de novo para 32% em junho do ano passado. Nesta data 13% das empresas tinham EBTIDA negativo!

Finalmente, a difícil mobilização da oferta também atingiu as importações. Assim como no caso doméstico, muitos pedidos foram cancelados em março e abril e os embarques suspensos. Quando tentou-se retomar o segundo semestre, outros países também haviam voltado às compras, levando a escassez de navios, contêineres e elevação extraordinária dos fretes. 

Como notícia ruim vem sempre em cachos, o dólar ficou bem acima de R$ 5,00, repetindo o ocorrido com a produção doméstica: faltam certos produtos e os custos dispararam.

Tudo isso levou à situação atual.

Como a economia vai desacelerar nesse início de ano, lentamente a situação tenderá a se equilibrar. Mas o que isso significa? 

Como comentei em meu último artigo nesse espaço (“A vacina comanda o cenário”), retornaremos à “normalidade” de uma forte segunda onda da pandemia, da lentidão da vacinação, da crescente importância do Centrão na economia (com sua filosofia reformista, liberal, privatista e a favor do equilíbrio fiscal, como se sabe...) e de um crescimento medíocre. 

O PIB seguirá estagnado e a indústria continuará a enfraquecer. Não é, pois, surpresa que volte a esquentar o debate sobre o futuro do setor. 

Nesse sentido, eu e João Fernando de Oliveira estamos organizando um debate no Insper, para o início de abril, com o tema “Existe futuro para a indústria?”. 

Voltarei brevemente a isto.

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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