A difícil questão dos monopólios no Vale do Silício

No Vale do Silício, é comum que uma empresa domine um campo em particular, como Google, Facebook e Amazon; mesmo entre startups, monopólios já são a norma

David Gelles e Mike Isaac, The New York Times

20 de janeiro de 2016 | 15h37

A palavra monopólio tem um tom distintamente nefasto, evocando imagens de industriais canalhas em salas enfumaçadas, tramando esquemas para derrubar seus rivais.

Ainda assim, no Vale do Silício, é comum que uma empresa domine um campo em particular. O Google é o líder total de pesquisas on-line. O Facebook tornou-se a maior rede social do mundo por uma larga margem. A Amazon virou, de longe, o maior site de comércio eletrônico.

Mesmo entre os chamados unicórnios - startups privadas que valem um bilhão de dólares ou mais - monopólios já são a norma. Como afirmou recentemente o escritor Om Malik, especialista em tecnologia na The New Yorker: "A maior parte das competições no Vale do Silício hoje são para ver quem será o vencedor do monopólio". O Airbnb domina o mercado de apartamentos de aluguel, o Snapchat é o maior aplicativo de mensagens efêmeras, e o Spotify se sobressai como a principal biblioteca musical de streaming. E quando falamos de serviços de transporte pedidos por aplicativo, o Uber, a companhia privada mais valiosa do mundo, é obviamente um líder.

Mas, apesar de ser difícil vencer a dominância do mercado, as startups não param de tentar. No caso do Uber, a Lyft está fazendo o que pode para se manter no jogo.

Recentemente, a Lyft levantou mais US$1 bilhão de investidores, incluindo a General Motors, aumentando seu financiamento total para US$2 bilhões. Ao mesmo tempo, anunciou que está desenvolvendo um software para carros autodirigidos e formando uma equipe com a GM para colocar mais motoristas nas ruas. Essas ações são parte da aposta da Lyft para se diferenciar e evitar ser comparada com a líder do mercado, uma experiência muito comum entre as empresas de tecnologia.

"Estamos ganhando participação nos Estados Unidos. Não é isso que acontece quando uma empresa tem um monopólio total", afirma John Zinner, presidente e cofundador da Lyft.

Independentemente do fato de a Lyft e o Uber poderem prosperar juntos ou de haver espaço apenas para um vencedor nessa indústria crescente dos serviços de transporte por aplicativo, a dominância do mercado em si não é ilegal. Os problemas surgem somente quando a empresa "restringe a competição de maneira injustificada" ou ganha e mantém o poder "por meio de conduta imprópria", de acordo com a definição de monopolização da Comissão Federal de Comércio.

Na verdade, há uma linha de pensamento que celebra os monopólios. Em uma decisão unânime de 2004, a Suprema Corte afirmou que a habilidade de criar um monopólio era um incentivo poderoso que deveria ser protegido.

"A mera posse de um poder de monopólio, assim como a aplicação concomitante de preços de monopólio, não só não é ilegal; é um elemento importante do sistema de mercados livres", escreveu o juiz Antonin Scalia em sua opinião. "A oportunidade de cobrar preços de monopólio - pelo menos por um curto período - é o que atrai 'a visão de negócios' em primeiro lugar; e induz o empresário a correr riscos que produzem inovação e crescimento econômico."

Os legisladores também não estão reprimindo o que acontece no Vale do Silício. Dada a maneira como várias empresas grandes de tecnologia tomam conta de seus respectivos mercados, elas têm sofrido relativamente poucas ações antitruste.

"Esse caso é diferente do antigo monopólio da era industrial", diz Robert Reich, ex-secretário do Trabalho, sobre as empresas de tecnologia.

Ao contrário da U.S. Steel ou da Standard Oil, duas das maiores indústrias da história, os monopólios de tecnologia hoje são raramente o provedor exclusivo de um bem essencial. Ao invés disso, muitos atingem sua dominância inicial distinguindo-se em um mercado lotado e rapidamente ganham maior participação graças ao poder dos efeitos de rede - ou seja, quando mais pessoas usam o serviço, mais valioso ele se torna para os outros, que se juntam a ele e o tornam ainda mais popular.

Os efeitos de rede ajudaram o Google, o Facebook e a Amazon a se distanciar de seus competidores e agora está auxiliando o Uber. O Google nasceu como o primeiro mecanismo de buscas, o Facebook não surgiu como primeira rede social, e a Amazon não foi a primeira a vender bens on-line. Ainda existem muitos sites de pesquisa, redes sociais e comércios eletrônicos. Mas apesar do leque de opções, os usuários continuam voltando para o Google e o Facebook.

Alguns dizem, no entanto, que as leis precisam de ajustes para um novo tipo de dominância de mercado.

"O problema subjacente aqui é que os legisladores antitruste têm em vista apenas o bem estar do consumidor", explica Reich. "Não veem o potencial de dominância total de longo prazo de uma rede, a possibilidade de comportamentos predatórios quando o gigante da tecnologia se consolida, ou para o poder político." (As leis antitruste europeias são mais abrangentes do que as dos Estados Unidos, resultando em ações contínuas contra o Google e outras grandes empresas de tecnologia.)

Junto com os efeitos de rede, outra marca registrada dos monopólios tecnológicos de hoje é que, talvez temendo a obsolescência, eles se diversificam. Apesar de a Microsoft ainda fazer os softwares Windows e Office, é também dona do Skype e tem um grande negócio de jogos. O Google tornou-se hoje uma subsidiária da Alphabet, nova empresa mãe e dona de uma companhia de seguros de saúde, de uma divisão de carros autodirigidos e de uma firma de capitais de risco. A Amazon está expandindo sua computação na nuvem e negócios de mídia em streaming. E o Facebook se diversificou em aplicativos de mensagem com o WhatsApp, de fotos com o Instagram e de realidade virtual com o Oculus Rift.

Isso também cria desafios para os legisladores. Quando fusões e aquisições são parte do ciclo natural de vida de startups e do capital de risco, não é fácil bloquear negócios que podem hipoteticamente reduzir a competição mais para frente. Como resultado, eles têm abençoado muitas aquisições que, para os críticos, parecem ser profundamente anticompetitivas.

Apesar de os monopólios na indústria tecnológica serem talvez mais fáceis de atingir do que nunca, especialistas afirmam que também estão muito mais vulneráveis. Os smartphones e o acesso generalizado à banda larga para conexão com a internet democratizaram o acesso a novas tecnologias criativas.

"Sun Microsystems. EMC. Cisco. Todas foram consideradas líderes do mercado em sua categoria durante um tempo. E então a grande maioria delas foi arrasada por essa coisa chamada nuvem", afirma Rich Wong, investidor de risco da Accel Partners.

E, claro, bilhões de pessoas navegam na web sem o Google, usam outras redes sociais além do Facebook e compram em outros sites que não a Amazon. Apesar de nenhuma novata tê-las substituído ainda, elas não estão imunes a essa preocupação.

Quanto ao Uber, se ainda não virou um monopólio, é o gigante dos serviços de transporte por aplicativos, pelo menos nos Estados Unidos. Uma das rivais, a Sidecar, fechou em dezembro, e a Lyft é seu último competidor significativo em escala nacional. (O Uber tem um caminho difícil a percorrer, já que vem enfrentando problemas com legisladores europeus, recentemente saiu de Frankfurt e está lutando contra rivais complicados na China e em outros mercados internacionais.)

Como um azarão, a Lyft está tentando colocar mais motoristas nas ruas e ganhar novos clientes. Da mesma maneira que o Uber, a empresa é privada e não compartilha muita informação sobre seu desempenho. Mas Zimmer diz que a companhia estava rapidamente ganhando participação no mercado dos Estados Unidos. Ele também vê o negócio de transporte por aplicativo como diferente das buscas na internet ou das redes sociais e mais parecido com o das empresas de telecomunicações, onde vários competidores grandes podem disputar os clientes.

"Exatamente como a AT&T e a Verizon precisam ter uma boa cobertura, atingimos um ponto em que a espera para que o carro chegue é de dois ou três minutos. Aí, não há diferença no comportamento entre os serviços. É nessa hora que você compete pela experiência."

Os monopólios não significam necessariamente que não existe nenhuma competição. Quando uma empresa como o Uber é capaz de arrebanhar a liderança na participação no mercado, outras, como a Lyft, ainda podem ter espaço para lucrar e até prosperar. Mesmo o Google não foi capaz de esmagar todos os outros programas de busca.

"A Microsoft tem um negócio decente no setor de busca. E muito do lucro do Yahoo ainda vem de pesquisas nas propriedades do portal. É mais um fenômeno em que o vencedor leva quase tudo, mas não leva tudo", afirma Roelof Botha, sócio da Sequoia Capital, empresa de capital de risco que tem investimentos no WhatsApp e no Airbnb.

Se esse for o caso na indústria de serviços de transporte por aplicativos, o Uber e a Lyft podem se tornar realmente competitivos pelos padrões do Vale do Silício: um duopólio.

The New York Times News Service/Syndicate - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.