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A digestão da crise

Não há mais o pânico de há alguns dias. A ação dos bancos centrais restabeleceu o chão que, de repente, tanta gente viu desaparecer sob os pés. E isso significa que já dá para voltar a pensar e não ficar limitado a reagir com as vísceras.Com base nas exposições e nas análises dos dois primeiros dias do Congresso Internacional da BM&F, que se realiza em Campos do Jordão, verifica-se que a percepção dos especialistas se encaminha, ainda com certa vacilação, para algumas conclusões.A primeira é a de que, ao contrário do que inicialmente foi sentido, esse furacão parece ter baixa capacidade de produzir destruição. O crédito podre (subprime), observou o prêmio Nobel Edmund Phelps, não passa de 4% dos ativos do mercado financeiro. O problema aconteceu porque não se sabe onde se localiza e quem está com dor de barriga. Isso bastou para que o crédito evaporasse, inclusive o fornecido entre os próprios bancos. Como os bancos centrais estão conseguindo restabelecer as linhas primárias de crédito, o pedaço mais crítico do problema parece em processo de dissolução. As condições para reavaliação do risco e distribuição das perdas estão dadas e esse é o primeiro passo em direção à porta de saída.A segunda conclusão é a de que é preciso criar um mínimo de regulação dos segmentos novos do mercado. A rápida pulverização de créditos fora dos bancos (desintermediação financeira) é uma inovação importante. Também foi inovadora a maneira como esses créditos foram embalados e repassados (securitizados). O problema é que não há visibilidade nem regulamentação dos novos canais. O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Rodrigo de Rato, pôs grande ênfase na necessidade de normatizar esses segmentos. Talvez surja uma instituição privada que se encarregue disso - sugere Phelps. O presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, propõe uma divulgação mais freqüente (e até diária) do valor das cotas dos fundos internacionais. Mas não há idéia de como essas coisas serão realizadas.A terceira conclusão é a de que alguns carneiros terão de ser sacrificados no altar dos deuses. Em alguma proporção o crescimento do PIB dos Estados Unidos será prejudicado, porque muita gente por lá corre o risco de perder a casa e haverá uma queda forte dos preços dos imóveis. Isso gera o efeito riqueza (percepção de empobrecimento) que afetará o consumo da locomotiva do mundo. Em contraposição, Phelps adverte que não se pode superestimar esse impacto porque a China e os demais emergentes respondem hoje por uma parcela maior da economia mundial.Mais que tudo - e isso não chegou a ser dito neste congresso -, parcela da poupança mundial, especialmente da Ásia, superior a US$ 800 bilhões anuais, continuará fluindo para financiar o consumo americano. Essa dinheirama deixará de azeitar a compra de imóveis, mas, depois de alguma hesitação, os americanos não terão outra opção senão gastá-la em outras formas de consumo. Enfim, depois de um tempo de empacamento, a roda voltará a girar.

celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2024 | 00h00

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