A disparada do bitcoin

A disparada do bitcoin

O valor de um bitcoin, que rondava os R$ 840 há um ano, atingiu as alturas dos R$ 2.900 no último dia 17. Em meio a tantas oscilações, essa valorização de mais de 240% da mais famosa das moedas virtuais faz parte de um movimento internacional recente de aumento da demanda por esse ativo. Na sexta-feira, era negociado a R$ 2.283.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2016 | 05h00

Mas, antes de avançar sobre as explicações para esse fenômeno, convém recapitular noções de base.

Sem intermediação de bancos centrais ou instituições reguladoras, o bitcoin se propôs a carregar o DNA de dinheiro virtual. Quando você vai à banca da esquina para comprar um jornal, paga à vista e recebe o troco também em dinheiro, trata-se de uma transação rápida, sem intermediação e sem necessidade de trocar informações pessoais com o dono da banca. No universo dos meios de pagamentos eletrônicos convencionais, no entanto, as transferências e compras dependem de números de cartão de crédito, boletos, etc. Nesses casos, é necessário ao menos um intermediário e as transações identificam sempre pagador e recebedor. “O bitcoin é na internet o que a nota de 20 euros, por exemplo, é no mundo físico. Para realizar um pagamento de forma imediata, anônima e sem custos, só é preciso criar um endereço bitcoin, não importando onde a pessoa esteja”, resume Rodrigo Batista, CEO do Mercado Bitcoin.net, site brasileiro que intermedeia compras e vendas de moedas virtuais.

Não há emissor oficial que possa ser identificado, como um banco central. As moedas são criadas por uma rede descentralizada de computadores capazes de resolver problemas criptográficos. Qualquer um pode “gerar” bitcoins desde que o computador em questão tenha capacidade de processamento para isso e que a pessoa possa arcar com os custos de energia elétrica para mantê-lo trabalhando. Os que criam bitcoins são chamados “mineradores” e são remunerados por isso. A tecnologia foi desenhada de maneira a que, nos primeiros quatro anos, fossem criados 50 bitcoins a cada 10 minutos e que, a cada 4 anos, a produção caísse à metade. Agora no início de julho, deve recuar de 25 para 12,5 unidades produzidas a cada 10 minutos.

Assim, a perspectiva de mais uma redução do ritmo de oferta deve ser entendida como uma das razões da forte valorização recente do bitcoin. 

O pesquisador de sistemas financeiros da Duke University Marcelo Prates avança outra explicação: o forte aumento da demanda na China. “O controle de capitais pelo governo da China destinado a evitar a saída de recursos parece estar impulsionando a busca por bitcoins, uma vez que seria maneira mais fácil de mandar dinheiro para qualquer parte do mundo”, observa. Como é baixo o volume em circulação (estimado hoje em apenas 15 milhões de unidades), qualquer movimento mais forte acaba por puxar para cima o valor da moeda.

Outro pesquisador da área, o professor da FGV Alberto Luiz Albertin prefere destacar o que chama de amadurecimento do mercado. Para ele, um sistema eletrônico de pagamentos mais descentralizado, menos burocrático e que permita o anonimato tende a ganhar aceitação. “Hoje as pessoas estão mais dispostas a operar sem intermediários, como, por exemplo, no crowfunding (financiamento coletivo pela internet)”.

No entanto, como meio de pagamento, uma das três mais importantes funções da moeda, o bitcoin pouco progrediu. Em geral, a aceitação da moeda virtual se restringe a um certo número de bares descolados, pousadas e galerias de arte. 

É importante lembrar também que, pelo anonimato e a rapidez no pagamento, é bastante utilizada em transações ilegais relacionadas ao tráfico, lavagem de dinheiro, etc. E o uso do bitcoin para fins ilícitos pode crescer com a disseminação de acordos de troca de informações financeiras automáticas entre os governos dos países desenvolvidos.

Assim, como meio de pagamento de bens e serviços, não emplacou; como investimento, ainda se restringe a opção de investidores de perfil aventureiro. Mas, como forma de transferir dinheiro, tem se destacado. A tecnologia chamada blockchain, que garante o registro geral de transações de bitcoins, protegido por criptografia, foi recentemente classificada pelo presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, como uma “revolução” por possibilitar a redução de custos de transações “num nível de segurança realmente espetacular”. Ou seja, já tem peixe grande querendo aproveitar o que tem de bom nessa rede. COM LAURA MAIA

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