A dobradinha do Fed com o FMI

Nunca houve uma ação preventiva como essa. Desta vez, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Federal Reserve (Fed), o banco central (BC) dos EUA, decidiram agir ao mesmo tempo para limitar o efeito da crise nas economias com fundamentos ainda satisfatórios, como Brasil, México e outros grandes emergentes. A amplitude e a rapidez das novas ações podem atenuar os efeitos da escassez global de crédito e reduzir o risco de recessão em várias economias importantes. No Brasil, o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci tem um bom motivo para celebrar: parte das novidades corresponde a uma proposta sustentada por ele, durante anos, em reuniões do FMI. As boas notícias foram anunciadas ao mesmo tempo, deixando clara, mais uma vez, a articulação entre o diretor-gerente do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, e as autoridades americanas. O Fed acertou linhas de swap cambial, isto é, de troca de moedas, com os bancos centrais do Brasil, do México, da Coréia e de Cingapura, para aliviar a escassez de financiamentos em dólares nesses países. O FMI anunciou a criação de uma linha especial de crédito para países com políticas econômicas saudáveis e acesso a mercados, mas com problemas temporários de liquidez. A ação do Fed, semelhante a acordos já adotados com dez bancos centrais do mundo rico, é de fato uma operação especial de financiamento. O banco central dos EUA não precisa das moedas de nenhum dos quatro países para prestar assistência de liquidez ao mercado americano. De fato, não precisa das moedas da maior parte dos outros parceiros auxiliados anteriormente. Mas tem um bom motivo para essa iniciativa: os quatro países beneficiários são descritos em nota oficial como "economias grandes e sistemicamente importantes". É muito mais barato para todo mundo, nesta altura, jogar uma bóia para ajudar esses quatro grandes parceiros. Com essa decisão, o Fed toma para si o papel destinado normalmente ao sistema financeiro privado e age, muito mais do que em qualquer outra circunstância, como um parceiro do FMI. Esse jogo combinado, ou aparentemente combinado, já havia ocorrido na primeira quinzena, quando Strauss-Kahn e outros diretores do Fundo insistiram, durante dias, numa ação mais audaciosa dos governos dos EUA e da Europa. A resposta veio no dia 10, uma sexta-feira, quando os ministros de Finanças do Grupo dos 7 anunciaram a disposição de capitalizar bancos privados com dinheiro público. Cada um dos quatro BCs poderá dispor de US$ 30 bilhões até 30 de abril de 2009. Isso deverá aumentar substancialmente o poder de intervenção desses bancos para suprir créditos em dólares. No Brasil, esse reforço deverá ser especialmente importante, a curto prazo, para o financiamento à exportação. Em outubro, os empresários vinham encontrando muita dificuldade para obter as tradicionais antecipações de contratos de câmbio, essenciais à rotina de sua atividade. A novidade informada pelo FMI corresponde, nos pontos essenciais, à linha especial de financiamento proposta durante vários anos pelo ministro Antônio Palocci e defendida em coro pelos ministros do Grupo dos 24, porta-vozes das economias em desenvolvimento. As características mais importantes são as mesmas: acesso fácil, desembolso rápido, montante equivalente a até cinco vezes a quota e sem as tradicionais e sempre detestadas condicionalidades, como políticas de ajuste e fiscalização de desempenho. "No entanto, espera-se dos tomadores do empréstimo o compromisso de manter um forte esquema de política macroeconômica", ressalva o FMI numa nota informativa divulgada ontem à tarde. O ministro Palocci e vários de seus colegas defenderam a criação dessa linha de financiamento numa fase de prosperidade internacional, quando a maior parte dos clientes habituais do Fundo estava em boas condições. Desde o início, a proposta vinculou a concessão dessa ajuda a países com políticas econômicas consideradas saudáveis de acordo com os critérios do Fundo. Houve, no entanto, forte oposição de vários governos do mundo rico. Além disso, a nova linha de crédito era descrita como preventiva. Como não havia urgência, o assunto foi sempre deixado em segundo plano e retomado regularmente, em cada reunião, pelos porta-vozes do Brasil e do G-24. Na assembléia geral deste ano, a missão coube, mais uma vez, ao ministro Guido Mantega. Mas dessa vez havia uma crise, a maior desde os anos 30. Isso parece ter feito a diferença. *Rolf Kuntz é jornalista

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