A doença dos bancos

Opinião

ROBERTO LUIS , TROSTER, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2015 | 02h05

É grave, é contagiosa e tem efeitos colaterais irreversíveis. A cada dia que passa, põe em xeque a sobrevivência de empresas - em especial a das pequenas - e desloca famílias para relacionamentos financeiros inadequados. Encolhe o potencial do Brasil. A enfermidade não é letal para os bancos, que vão permanecer solventes e sobreviver. Entretanto, urge uma mudança na política bancária e nos modelos de negócios dessas instituições, para reduzir suas sequelas na economia.

Este ano, a inadimplência bateu recordes históricos, tanto na pessoa física como na pessoa jurídica. Estima-se que 3,6 milhões de empresas (1 em cada 2) e 57,0 milhões de CPFs (1 em cada 3) têm contas em atraso.

Considerando a trajetória do endividamento observada, agravada pelo cenário macroeconômico atual, que não é favorável ao crédito, com menos crescimento e mais inflação, as perspectivas são de piora.

Num quadro de incertezas e de inadimplência alta, como o atual, a boa prática bancária prescreve um aumento dos critérios de concessão, elevação das taxas e redução dos prazos. É o que os bancos individualmente estão fazendo. As linhas mais ofertadas são o cheque especial e o rotativo do cartão. As concessões das duas, somadas, correspondem a 2/3 do total do crédito livre ofertado. São as que têm os prazos mais curtos e as mais caras. Cobram juros anuais de 214% e de 342%, respectivamente. Nos últimos seis meses, subiram as taxas em mais de 30%, enquanto a Selic subiu menos de 2%.

Atualmente, são as únicas ou as últimas opções de crédito para muitos, e inviáveis para todos, no médio prazo.

Dezenas de milhares de empresas com perspectivas de expansão e solventes ficam inadimplentes num primeiro momento e inviáveis depois de um tempo, por causa da deterioração das condições de crédito. Destrói-se a capacidade produtiva do País.

O problema também é ruim para os bancos. A inadimplência está corroendo parcelas crescentes de seus resultados. As provisões para perdas de crédito reduziram o lucro bruto da intermediação no segundo semestre: 23,0% em 2010, 33,5% em 2012 e 42,6% em 2014.

Cada vez mais recursos são destinados ao pagamento de juros, o que é inconsistente intertemporalmente para o País. Os juros pagos por operações de crédito do sistema financeiro totalizaram 9,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo semestre de 2010; 9,4%, em 2012; e 10,1%, em 2014.

Note-se que esses números não incluem os juros da dívida pública e da maioria dos financiamentos do mercado de capitais.

É logicamente impossível que continue a crescer indefinidamente. Ou isso acaba em crise (pouco provável) ou em recessão prolongada (que não convém a ninguém).

Com a elevação dos critérios de concessão, parte dos créditos deslocou-se para o comércio, as financeiras e os cartões e agravou a inadimplência fora dos bancos.

Desde o início da "cruzada do crédito" - abril de 2012 -, as anotações da Serasa para pessoa física subiram 7% para bancos e 24% para o comércio, financeiras e cartões; e para pessoa jurídica, 15% e 33%, respectivamente.

Muita tinta é gasta analisando como o governo deve melhorar a dinâmica da dívida pública. Entretanto, ignoram-se as dificuldades de milhões de empresas e de dezenas de milhões de cidadãos.

O potencial de recuperação da economia brasileira está encolhendo por causa da configuração do endividamento do setor privado. É óbvia a necessidade de mudanças na política bancária e nos modelos de negócios adotados.

O que alarma é que os bancos, incluindo o Banco Central, estão doentes: ou paralíticos ou cegos ou ambos. Atuam como se o problema não existisse.

Note-se que há outras situações em que se comportam da mesma forma e não reagem. Um exemplo é o que aconteceu na campanha eleitoral, quando foram chamados de ladrões. Não são, mas não deixaram isso claro publicamente.

O ponto, aqui, é que o que é bom para cada banco individualmente no curto prazo é ruim para o conjunto e para a economia no médio e no longo prazos.

Na teoria econômica, o que está acontecendo é um equilíbrio de Nash, também chamado de perverso. No caso, a modificação da estratégia de cada instituição individualmente não é conveniente, considerando que as dos concorrentes fiquem iguais. Ocorre por falhas de coordenação. Mas alterações conjuntas melhorariam a situação de todas.

Mudanças adequadas na política bancária induziriam a modelos de negócios dos bancos tão rentáveis quanto ou até mais do que os atuais, com mais legitimidade e mais sintonizados com as demandas da sociedade brasileira.

O momento não é de expandir o crédito, mas está na hora de arrumar a casa. O mais urgente e importante é curar a doença dos bancos: reconhecer que os entraves acima existem. Sem isso, é impossível avançar. Continuar a ignorar o problema é um fardo para o País.

Há um conjunto de medidas emergenciais que podem ser adotadas rapidamente, para desinflar a bolha de endividamento e corrigir algumas distorções na tributação, na precificação de operações, no cadastro de clientes de crédito e na gestão da liquidez sistêmica. Uma mudança do paradigma vigente para o de crédito responsável é fundamental. Dever bem é bom e é conveniente.

A agenda é extensa e inclui uma padronização maior, a certificação para a concessão de financiamentos, a criação de uma agência de proteção ao tomador, mudanças na indexação, melhorias nos mecanismos de transmissão e mais transparência, entre várias outras medidas. É uma tarefa complexa, mas que foi realizada com sucesso por outros países.

Com um novo paradigma, pode-se ambicionar uma expansão consistente e sustentável do crédito, com benefícios para cidadãos, empresas, bancos e o País.

Resumindo, a cura da doença induziria mudanças na política bancária e nos modelos de negócios e faria com que os bancos deixassem de ser um peso na economia e se tornassem propulsores na retomada do crescimento.

DOUTOR EM ECONOMIA, FOI ECONOMISTA-CHEFE DA FEBRABAN E DA ABBC E PROFESSOR DA USP E DA PUC-SP. E-MAIL:

ROBERTOTROSTER@UOL.COM.BR

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